segunda-feira, 6 de abril de 2015

Anões e gigantes: o jardim da pré-escola

A Profª. Drª. Maria Carmen Barbosa continua me emocionando, principalmente depois de tê-la ouvido em três palestras, proferidas em diferentes municípios, aqui do norte catarinense, no ano passado. E foi também de sua última orientação de tese de Doutorado que me veio a grata satisfação em saber que minha concepção de Educação Infantil está consonante com as últimas pesquisas de especialistas e estudiosos da área e que não se trata de um delírio pessoal. (Quero frisar que a atualização e o abandono de antigas crenças é parte da vida de um docente. Não há vergonha alguma em mudar de concepção. Aliás, é um dos prazeres da profissão).  

Estou me referindo à tese de Doutorado de Cinthia Votto Fernandes (2014), intitulada "A identidade da Pré-Escola: entre a transição para o Ensino Fundamental e a obrigatoriedade da frequência". A pesquisa desenvolveu-se através de entrevistas com pais, professores e crianças a respeito das semelhanças e diferenças nas concepções desses sujeitos em relação à Pré-Escola e ao primeiro ano do Ensino Fundamental. Além de observações das crianças em atividade e da análise da representação por desenhos das crianças a respeito do significado para ela dessas duas instâncias educativas, o que também fez parte do trabalho.

É importante que se leia todo o trabalho mas principalmente que se atente ao que Fernandes conclui com a pesquisa e que se encontra nas "Considerações Finais" da tese. Em vinte e três parágrafos, seis páginas e mais ou menos noventa linhas, a autora descreve com exatidão a situação da Pré-Escola que encontrou na instituição pesquisada no Rio Grande do Sul e que coincide, incrivelmente, com a maioria da opinião de pais, professores, gestores, orientadores educacionais e crianças da sociedade do que seja o trabalho da Pré-Escola em muitos municípios brasileiros atualmente.  

Vejamos alguns excertos do trabalho: 

"Os significados presentes na narrativa dos atores do processo educativo sobre a pré-escola no contexto pesquisado trazem uma concepção de pré-escola que se traduz em uma identidade. [...] Dentre tantos significados percebi o predomínio de uma identidade preparatória". 

Prestemos atenção sobre o que autora quer dizer com "identidade preparatória". A mesma que venho percebendo, recorrente, da parte de pessoas que acreditam que são sabedoras do que deve a Educação Infantil empreender: preparar os pequenos para o papel de alunos. Ouvi, em alusão a essa certeza, frases que negavam a competência das crianças ao final da pré-escola por culpa de profissionais da educação que não cumpriram o seu papel: "Nem sabem segurar o lápis"; "Não reconhecem as letras do alfabeto"; "Não dominam os números de 1 a 9"; "Não vão conseguir ficar sentados na carteira", etc etc.

Em parágrafo seguinte novas deduções da autora:

"Parece haver o entendimento literal de que, na pré-escola, apesar de seu nome apenas identificá-la como etapa anterior à escola, o que ocorre é uma legitimação de uma pré-escolarização, ou seja, ações pedagógicas que possuem sua ênfase em situações de preparação de aprendizagem de leitura e escrita, como também de matemática e conhecimentos escolares pertencentes ao currículo do Ensino Fundamental. As referidas propostas são baseadas em atividade estéreis, sem significado para as crianças e relacionadas a um treino visomotor, não com intenção de ampliar as relações sociais, culturais e cognitivas. Estes conhecimentos, principalmente o da linguagem escrita, aparecem como grande foco da escolarização, apostando nesta preparação para que ocorra o sucesso das crianças nas etapas seguintes".

Salvo os docentes que publicamente se manifestaram indignados com essa realidade, os demais colegas parecem concordar com esses objetivos da Pré-Escola. Caso contrário não teríamos tantas fotocópias de atividades de treino a povoar as pastas das crianças, com intuito de surpreender positivamente os pais, no afã de parecerem-se docentes conscientes de seu papel como mediadores pedagógicos. Esses mesmos profissionais também poderiam ter-se dado conta, pelas inúmeras vezes que lhes foi esclarecido que, em se tratando de linguagem escrita, o significado se complexifica, uma vez que não se trata de apenas dominar as letras do alfabeto. Para a criança adentrar no mundo da leitura e da escrita necessário se faz reconhecer seu valor social e participar de eventos nos quais seja necessário ler e escrever, comunicando muito mais do que o traçado correto das letras e sim, sentimentos e emoções que envolvem essas ações.

Fernandes se aproxima intimamente de algumas concepções e sinaliza pontualmente:

"Essas ações pedagógicas, como os espaços pequenos organizados com mesas e cadeiras, com poucos brinquedos, sem espaços externos, tempo fragmentado dividido pelas atividades pedagógicas e ações de cuidado, sem permanência ou mesmo reduzido para a brincadeira, evidenciam uma espécie de aceleramento para que as crianças compreendam o quanto antes todos os fazeres que o "ofício de alunos" as impõem. Nesse sentido, essas práticas parecem aproximar-se de um processo de preparação para a escola de Ensino Fundamental, revelando um modo escolar de socialização [...]. Não há uma proposta em si, mas parece que a pré-escola possui como tarefa a adaptação à futura escola, o que diminui as possibilidades de desenvolver aspectos que, na escola, diante do modelo vigente do Ensino Fundamental, não serão oportunizados, como teatro, cinema, música, dança, além de outros conhecimentos que não são considerados legítimos socialmente".

Se invocássemos a fala de muitos profissionais da educação, solicitando que dessem depoimentos a favor de uma escola que lhes desenvolveu outras linguagens além da oral e da escrita, concluiríamos que temos grandes lacunas em nossa formação integral, uma vez que linguagens não valorizadas socialmente, diga-se economicamente, foram relegadas a segundo plano na maioria das escolas nos últimos trinta anos. É exatamente esse o papel que a Educação Infantil tem: desenvolver com as crianças outras linguagens, não privilegiando duas em detrimento das demais. Porém, para que isso seja realidade e de desejo dos adultos responsáveis pela educação dos pequenos, valorizando as experiências que trazem para as instituições mesmo pertencendo a um grupo tão jovem da sociedade, é preciso reconhecer que a Pré-Escola não se chama "pré" de preparatória e, sim, "pré", como etapa anterior, com uma especificidade que não pode ser subjugada oferecendo a promessa de futuro sucesso escolar. É genuíno reconhecer que muitos profissionais precisam urgentemente se dar conta de que não estão fazendo nem isso, nem aquilo. O que é deveras preocupante. (Discorrei sobre isso num próximo texto...).

"A pré-escola é significada, neste contexto, como um ambiente preparatório para que a criança tenha melhor desempenho na etapa seguinte, para tanto, são proporcionadas atividade baseadas no treino e na repetição, vazias de significados. Essa concepção pode ocorrer devido ao não entendimento das leis, bem como à forma de implantação destas e das diretrizes curriculares que norteiam nacionalmente tanto a Educação Infantil quanto o Ensino Fundamental".

Um grave equívoco aconteceu com a transposição das competências para as crianças que passaram a integrar com um ano de antecedência o Ensino Fundamental. Como se elas pudessem, por conta própria, desenvolver mecanismos para se comportar como alunos. Mais grave que isso: a responsabilidade, antes das crianças que hoje frequentam o primeiro ano do Ensino Fundamental, foi transferida para as crianças de quatro e cinco anos. A nomenclatura é autoexplicativa: pré I, crianças de três anos, completando quatro anos até 31 de março, comportando mochilas, com material escolar, como se fossem "alunos". Ora, a criança que se adapte? Por outro lado, os suportes e instrumentos de escrita são restringidos às crianças. Práticas que mobilizam experiências empobrecidas, revelando que as crianças deveriam mesmo, o quanto antes, crescer, uma vez que a infância é um período idílico, mas que não requer um debruçar sério da parte dos adultos.
    
Como última ideia que necessito acrescentar a essa discussão, busco o excerto da seção "Considerações Finais" da tese de Fernandes que, deduzo, fala por si. Qualquer semelhança é mera coincidência:

"[...] nesse cenário, parece existir, apesar de haver cursos de formação, uma dificuldade em compreender e construir uma política para a Educação Infantil, especialmente pela rede municipal. Os professores e o executivo do município parecem não saber acessar a novos conhecimentos sobre a Educação Infantil. Ademais, este último parece também não considerar fundamental para a qualificação da rede a formação continuada com temáticas que, efetivamente contribuam para a ação pedagógica nas instituições".




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