domingo, 12 de abril de 2015

A atividade lúdica e o desenvolvimento infantil: imaginação, para que te quero?

Certa vez alguém me pediu que eu lhe explicasse o que eu entendia sobre lúdico. Ora... as minhas explicações na época em nada se assemelham ao que diria hoje sobre essa palavra. 

Temos, como pedagogos, poucas oportunidades de nos aprofundar no tema na Formação Inicial e tampouco as garantiremos na Formação Continuada (leia-se Em Serviço). No entanto, deveríamos nos informar e refletir mais sobre. Mas por que a discussão deveria nos interessar? O que o lúdico tem a ver com a educação de crianças de 0 a 5 anos? Por que a mesma pessoa que me fez a pergunta há algum tempo, contou-me há poucos dias que seu filho de cinco anos foi descrito pela professora como "viajão", quer dizer, distraído, fantasioso, pouco centrado, sonhador? Parece-me preocupante que esse tipo de descrição continue ocorrendo da parte dos/as profissionais da Educação Infantil. Na verdade, as crianças estão perdendo enquanto não soubermos mais do que o senso comum sobre o que é o lúdico e que as crianças, como grupo geracional específico, vivem uma etapa chamada infância, que, convenhamos, tem movimentado a academia de forma significativa em busca de novos horizontes. 

Para a maioria de nós a palavra "lúdico" está associada  à diversão, brincadeira, fantasia, faz de conta, alegria. E pode ser mesmo isso. Mas só essas noções são vagas para pedagogos/as.

Na pré-escola, a atividade lúdica é a principal para a criança. E a atividade principal da criança é a brincadeira. Se a brincadeira invoca a imaginação, podemos depreender que a brincadeira é, em sua essência, lúdica. O problema em discutirmos o que é lúdico, qual o papel da brincadeira é que pouco sabemos sobre a brincadeira como categoria que concerne a nós, pedagogos, assim como o cálculo concerne ao matemático.

A atividade lúdica é humana e não está definida a priori: ela depende de condições concretas para se desenvolver. Para Rocha (1994), a caracterização da atividade lúdica é complexa, pelo fato de que, como outras atividades humanas, ela reflete em sua estrutura de funcionamento uma relação dialética entre o já dado e o inovador, entre o imaginado e o conhecido; nem pura fantasia (no sentido ausência/negação da realidade ) nem pura realidade transposta. A esfera lúdica permite a convivência de diversas contradições (p.62).  

Vigotski, Leontiev e Elkonin advertem que a atividade lúdica consiste na elaboração de formas especificamente humanas de representar, significar e conhecer o mundo que possibilita a criança constituir-se como sujeito, sem deixar de levar em consideração os fatores condicionantes da cultura ou das condições concretas de vida que modulam o desenvolvimento dos sujeitos. Sobretudo, esses autores enfatizam que a atividade lúdica não é natural e universal no homem. Ela dependente do contexto histórico-cultural em que este está inserido.

Vigotski e colaboradores negaram a tendência inata do brincar na criança, sobretudo o brincar como resultado de fatores maturacionais. Eles afirmam que a capacidade para brincar é resultado das relações sociais e das condições concretas de vida e, a partir delas, a criança emerge como sujeito lúdico.

Nas sociedades em que se deu mais fortemente o desenvolvimento das forças produtivas, da complexificação dos instrumentos e o surgimento de novas formas de divisão do trabalho, as crianças foram, gradativamente, sendo retiradas da esfera da vida adulta, agora mais complexa e exigindo novas responsabilidades. Essas condições histórico-culturais deram origem ao jogo de papéis. Os instrumentos de trabalho no contexto dessa sociedade perderam sua função originária, conservando apenas a semelhança externa com os instrumentos de trabalho utilizados pelos adultos. Foi esse cenário que deu origem aos brinquedos, através dos quais as crianças reproduzem, na esfera social, a vida adulta da qual ainda não participam mas desejam participar.

É exatamente no desejo de participar das atividades do mundo adulto que se desenvolve a brincadeira do jogo de papéis. O que a criança faz na brincadeira é tomado daquilo que ela observa as pessoas a sua volta fazerem concretamente. A criança representa no jogo o que há de típico na realidade concreta nos papéis conhecidos, como, por exemplo, o que há de típico em ser "mãe", ser "professora", ser "bombeiro".

De que forma a atividade da criança se caracteriza como lúdica (isto é, se emancipa da realidade)? É através da imaginação. A imaginação (processo psicológico especificamente humano) se origina da atividade lúdica. É a capacidade da criança em lidar com o mundo, atribuindo-lhe novos significados, além dos socialmente estabelecidos. É no jogo de papéis que o real e o imaginário se relacionam dialeticamente. O impulso criativo é aquele que permite á criança reordenar os elementos extraídos da realidade em novas combinações.

Portanto, à criança com "ar de sonhadora", que parece imersa em um "mundo à parte", o real e o imaginário estão implicados e os limites entre ambos são altamente permeáveis. A imaginação não é condição para que ela possa brincar. Na verdade, quanto mais ações lúdicas a criança puder desenvolver, mais o imaginário se compõe.
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Enquanto não compreendermos o papel da brincadeira, das interações sociais e da vivência de experiências diversificadas com a cultura historicamente acumulada para o desenvolvimento da personalidade e da inteligência, continuaremos defendendo a socialização da criança como um processo em que elas devem sofrer as ações dos adultos ao invés de participarem ativamente de seu próprio processo de humanização.  



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