quinta-feira, 16 de maio de 2013

Relatório de acompanhamento do desenvolvimento: um olhar atento sobre a criança

Escrever Relatórios de acompanhamento do desenvolvimento de bebês e de crianças pequenas pode causar muita preocupação a professoras e professores. Geralmente escrever é uma tarefa penosa, principalmente se os cursos de Pedagogia não nos oportunizaram o exercício de escrever textos, muitos textos.  
 
Pensando nisso, publico, a seguir, um relatório de acompanhamento do desenvolvimento de uma criança, com o intuito de assegurar aos leitores, professoras e professores, que escrever é uma de nossas habilidades mais caras. E escrever se aprende escrevendo. Prova disso é que estou nesse exercício, ainda engatinhando como os bebês, na espera de alcançar o mundo.

 

Com um ano e seis meses, Felipe é uma das crianças integrantes do Centro de Educação Infantil Raio de Sol, junto com outras crianças da mesma faixa etária e que compõem o Berçário II.
            As professoras responsáveis pela educação e pelos cuidados da turminha do Berçário II são Alice Pereira, Pedagoga, com Especialização em Educação Infantil e Luciana Barbosa, Pedagoga, com Especialização em Metodologia do Ensino e Mestre em Educação e Cultura.
A turminha de Felipe caracteriza-se como um grupo de crianças alegres, falantes, inteligentes e muito criativas. Destacam-se pelo entusiasmo ao ouvirem histórias da literatura infantil. As músicas, as dramatizações e as encenações arrebatam o grupo. As crianças apresentam especial interesse no manuseio de livros, de revistas, mencionando as imagens que mais lhes interessam.
Tintas, pincéis e giz de cera são os materiais preferidos da turma. Expressam curiosidade por brinquedos, como carrinhos, bonecas, bolas e em especial as motocas. São destras nas brincadeiras de roda e para músicas com gestos e movimentos do corpo. Demonstram muita curiosidade por brinquedos novos e por objetos com rodinhas ou que podem ser empurrados. Mostram-se participativas nas atividades propostas pelos projetos de trabalho. Avançam diariamente na construção de sua autonomia e expressam-se buscando independência de movimentos e vontades.
            A agenda de trabalho com as crianças no Berçário II é composta de atividades de “cuidado” e das que são propostas pelos projetos de trabalho. Ambas são imprescindíveis para a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças.
Bebês necessitam de segurança e conforto. Esta é uma excelente justificativa para a existência da chamada "rotina" nas salas de Berçário (turma de bebês e crianças pequenas). Vivenciar diariamente uma sequência de atividades de cuidado e atenção fornece ao bebê a certeza de que suas necessidades serão supridas e, por isso, a importância de se observar a disponibilidade do adulto no atendimento ao que os bebês solicitam. 
As atividades de rotina acontecem todos os dias e são compostas das refeições, da troca de fraldas, da higiene, do soninho e das brincadeiras livres no pátio do Centro. Ainda que inseridas no âmbito dos cuidados primários e fundamentais das crianças, as atividades de rotina devem contribuir para o integral desenvolvimento dos pequenos. Elas oferecem oportunidade à criança de movimentar-se, desenvolver posturas corporais e explorar sensações em relação ao seu corpo. Sobretudo, as atividades da rotina oferecem às crianças a sensação de segurança e familiaridade, minimizando o desconforto que pode causar o distanciamento temporário de sua família.
Desde o início do semestre Felipe frequentou o Centro em período integral. As professoras sentiram-se preocupadas com a fase de "adaptação" de Felipe, haja vista que ele ainda não caminhava sozinho, apesar de seu ano e dois meses completos em fevereiro. A "adaptação" é conhecida como o período de familiarização da criança ao ambiente do Centro e com as pessoas. Felipe era o bebê mais dependente dos adultos na sala e isto deixou as professoras apreensivas, pois sua locomoção estava comprometida, bem como a mobilidade para outros ambientes com uma turma onde a maioria saía na corrida pelos corredores. Foi no final do mês de março que oficialmente Felipe andou e as professoras ficaram muito satisfeitas com sua nova capacidade de locomover-se. Atualmente, Felipe é um menino ágil e se locomove com destreza.
Felipe, no período de adaptação, demonstrava muitos momentos de desconforto, chorando, gemendo, engatinhando atrás das professoras, pedindo muita atenção. Ficava próximo do portão e chorava quando uma das professoras saía e não o levava. Como era muito bebê, demorou um pouco para compreender que as professoras sempre voltavam e que haveria sempre alguém a olhar por ele. Atualmente esse problema não existe mais para Felipe. Ele é conhecedor do que acontece no dia-a-dia de sua sala e isso o deixa muito tranquilo. Em relação aos colegas de sala, Felipe, no princípio do semestre e agora, finalizando-o, sempre teve um excelente convívio com os amigos de sala, não participando de conflitos ou em disputa por brinquedos. Felipe nunca foi motivo de nervosismo ou ciúme de outra criança. Com seu jeito meigo e tranquilo, envolveu-se com as brincadeiras que as professoras propuseram, com as músicas, com os brinquedos disponíveis. Felipe não demonstrava desconforto em dividir os brinquedos com os colegas. Ele os entregava e logo procurava outro disponível.
Com a mobilidade de Felipe em alta, caminhar até o refeitório sempre pareceu muito divertido. Mesmo em dias de chuvisco, Felipe preferiu andar sobre o pátio de pedrinhas, ignorando os chamados e orientações das professoras. Chegando ao refeitório, não era incomum ver Felipe meter-se debaixo de uma das mesas e só sair de lá quando pego pela mão. Mas na hora das refeições Felipe comeu com muito apetite desde o início do ano. A não ser nos dias de indisposição por doença, Felipe teve boa aceitação dos alimentos e experimentou novos com curiosidade.
O momento da alimentação da criança na faixa etária em que Felipe se encontra é de muitas descobertas. Os alimentos, antes de serem efetivamente levados à boca passam pela sensação visual (olhos que pesquisam o que tem no prato), passam pela sensação tátil (mãos que tocam o que tem prato) e sensação do paladar (que gosto tem o que tem no prato). Alimentar-se, assim, garante um momento de intensas aprendizagens e por isso tão importante para a criança em desenvolvimento.
 Felipe demonstrava interesse em alimentar-se sem ajuda. Porém, notava-se, no início do semestre, que precisava ainda de supervisão e ajuda com a colher, pois sozinho nem sempre conseguia levar à boca alimento suficiente para saciá-lo. Nas últimas semanas do semestre notou-se que Felipe teve duas reações novas. Ou se mostrava sonolento na hora do almoço, fechando os olhos durante a mastigação, ou se levantava constantemente do banco, tentando ir para outro lugar. Constatou-se que o cansaço deveria ser em função do horário em que chegava de manhã ao Centro. E a tentativa constante de sair do banco, bem... as professoras já sabem que todas as crianças um dia vão tentar isso.
Brincar também faz parte das atividades cotidianas das crianças dos Berçários. Todos os dias são criadas situações e momentos para as brincadeiras livres ou dirigidas. A brincadeira na infância representa a própria razão de viver e sem brincar uma criança tende a não se desenvolver saudavelmente. As brincadeiras ao ar livre foram as preferidas de Felipe e o brinquedo mais escolhido foi a motoca. Felipe demonstrou concentração nas brincadeiras com potinhos e pedrinhas, reagindo com alegria e tranquilidade enquanto se encontrava no pátio. Sua habilidade de subir e descer no escorregador melhorou muitíssimo depois que começou a caminhar sozinho e hoje não perde em nada em relação a outras crianças na agilidade de subir em cadeiras, bancos ou degraus.
Um dos momentos propícios para a aproximação com a criança individualmente é a hora da troca de fraldas e de roupas. A criança reconhece na professora alguém em quem ela pode confiar, quem a acolhe e com quem ela pode estabelecer contato de cuidados e de aconchego. Durante a higiene e a troca de fraldas, Felipe se mostrou sempre disposto em acompanhar as professoras, expressando satisfação por ser atendido individualmente. No trocador era convidado a subir pela escada o que lhe dava grande satisfação. Felipe é destas crianças que demonstram com um sorriso quando tudo está bem e seu humor sempre está em alta. As professoras aproveitavam a hora da troca de fraldas e roupas para interagir com Felipe, conversando com ele e pedindo que ele repetisse palavras como “Prô”, “Mamãe”, “Gabriel” o que Felipe fazia rapidamente. Durante a troca de fraldas e roupas Felipe também teve oportunidade de mostrar às professoras que conhecia seus pertences e sua mochila.
Manejar a escova de dente é algo muito divertido para uma criança da idade de Felipe. As crianças dessa faixa etária realizam muitas brincadeiras com a escova, inclusive, aprendem a escovar os dentes, porque isso, na verdade, é só um detalhe para a criança. É preciso grande investimento nessa hora por parte das professoras para que as crianças façam os movimentos com a mão que segura a escova. Quando as professoras escovam os dentes junto com as crianças, elas as imitam. Dizer que a escovação é feita para tirar os restinhos de comida da refeição anterior ajuda muito as crianças a querer escovar os dentes, mas sempre é preciso muita dramatização.
Durante a escovação de dentes nem sempre Felipe permaneceu sentado, excursionando pela sala a correr e se enfiar debaixo da mesa. Porém, ao se falar firmemente com Felipe, ele atendia as professoras e fazia ares de quem já sabia escovar os dentes. Quando as professoras pediam para Felipe mostrar os dentinhos escovados, ele sorria com vontade, achando a escovação dos dentes mais um bom momento para se divertir.
A hora do soninho, atividade necessária no cotidiano dos Berçários, representa uma ótima e necessária oportunidade da criança repor suas energias, principalmente aquelas que frequentam o Centro em período integral. O soninho acontece uma vez ao dia no Berçário II, logo depois do almoço e se caracteriza um momento propício para receber o acalanto das professoras. Felipe, desde o princípio do semestre, deitava em seu colchonete e logo dormia. Sem necessidade de chupeta, o relaxamento fazia Felipe logo pegar no sono. Seu sono era tranquilo e perfazia cerca de uma hora e meia. Ao acordar, Felipe parecia renovado, alegre e pronto para mais uma etapa do dia cheio de brincadeiras e aprendizagens.   
No cotidiano dos Berçário II acontecem também atividades relacionadas aos projetos de trabalho, que têm como base a Proposta Curricular de Jaraguá do Sul e objetivam desenvolver integralmente a criança, no âmbito das suas múltiplas linguagens, no desenvolvimento de sua identidade e autonomia, bem como sua socialização e ampliação dos conhecimentos de mundo. Os projetos são, predominantemente, fruto da observação do grupo de crianças do Berçário II e seus interesses.
            Durante o semestre reservou-se um momento do dia para a contação de histórias de literatura infantil. A formação de leitores inicia muito antes da leitura como decodificação. Por isso é salutar que crianças ouçam muitas e muitas histórias durante a infância, pois a fantasia, o faz-de-conta são linguagens que as crianças utilizam para falar de seu mundo e de sua compreensão sobre a vida. Durante o semestre, várias histórias foram contadas, dramatizadas, narradas e encenadas com e para os bebês. No início do ano Felipe não demonstrava apreciar muito sentar para ouvir histórias. Junto com outros companheiros preferia envolver-se com os brinquedos disponíveis na sala, demonstrando não querer parar para ver gravuras ou ouvir o que as professoras estavam mostrando e contando. Porém, com o passar dos meses, Felipe iniciou uma nova fase e atualmente é capaz de se concentrar numa narração ou nas ilustrações de um livro com facilidade. As professoras não forçam as crianças a permanecerem sentadas para ouvir histórias. Outrossim utilizam a manifestação do interesse delas para modificar a maneira de contar, de narrar, de encenar para as crianças. Como se os bebês fossem os termômetros para avisar às professoras se está interessante a atividade ou não. Felipe, por ser tão jovem em relação às demais crianças de seu grupo, demonstrou, até meados do semestre, que seu interesse era mais tocar o livro como suporte, do que se contentar em ser espectador. Atualmente, quando as professoras anunciam o momento da contação de histórias, Felipe procura se sentar no colchonete, à espera da história que a professora vai narrar. E quando os livros estão à disposição, ele os folheia com curiosidade e cuidado.
A maioria dos temas desenvolvidos pelos projetos durante o semestre foi colhida da observação dos interesses das crianças. O primeiro projeto desenvolvido com as crianças intitulou-se “Conhecendo os animais através da literatura: dedos, mãos e pés que desenham” e vigorou do início do mês de março até a primeira semana do mês de abril. Sua realização se justificou porque ofereceu oportunidade das crianças expressarem gosto e interesse por cores e formas, de ampliarem seu repertório e conhecimento sobre animais e de compartilharem sentimentos e emoções coletivamente. Felipe, durante a vivência desse projeto, conseguiu fazer os primeiros contatos visuais com figuras de animais em livros de histórias. Desenvolveu gosto em imitar animais através dos sons que emitem, dos movimentos que realizam e também fazendo caretas e olhares curiosos quando a professora contava algo interessante sobre os animais.
O segundo projeto trabalhado no semestre foi “Músicas para brincar de faz-de-conta”. O principal objetivo deste projeto foi oferecer oportunidade para as crianças entrarem em contato com a encenação e dramatização de músicas e, para que elas pudessem se expressar corporalmente, vivendo situações de faz-de-conta e vivenciando situações em que pudessem ampliar a comunicação oral. Felipe expressou alegria quando as professoras cantavam e quando a música incentivava gestos e movimentos. Ele se movimentava junto do grupo, observando as professoras. Com um sorriso de animação, Felipe começou a mostrar, dia após dia, a evolução de suas habilidades motoras, andando, correndo, dançando, impondo seu próprio ritmo. Para quem começou o semestre engatinhando, o desenvolvimento de Felipe foi muito a contento.
Uma das experiências mais interessantes vivenciadas neste semestre pelo Berçário II foi a visitação às demais turmas do Centro. O objetivo foi colocar nossas crianças em contato com crianças de outra faixa etária e realizar brincadeiras e atividades programadas. Essa oportunidade de convívio estimula diferentes reações e respostas das crianças, no que se refere à aquisição e à ampliação do vocabulário, na convivência do grupo e no processo da construção da autonomia. Numa dessas visitas foi realizada uma pintura com pincel e tinta guache na companhia de crianças do Pré-Escolar. Naquele dia Felipe participou com entusiasmo da atividade, pintando os cabelos e a boca. Ao notar que seria fotografado, abriu um largo sorriso de exibição.
Assim como Felipe se mostrou muito disposto em atividades de pintura, também apreciou fazer desenho com giz de cera, carimbar as mãos para fazer desenhos de animais, de carimbar os dedos. Nesses momentos sua relação com o grupo foi sempre tranquila, esperando a vez de ser chamado pelas professoras para participar.
“Fazendo arte com tinta, papel e sucata: borboletas, aranhas, peixinhos, cavalos” foi a denominação do projeto de meados do mês de junho. Este projeto ofereceu muitas oportunidades de expressão da musicalidade, linguagem das mais importantes na infância, incrementada com brincadeiras de faz-de-conta e de músicas dramatizadas. Felipe demonstrou fascinação pelo cavalo de pau confeccionado com meias e cabos de vassoura. Cavalgou na área externa e fez de conta que o cavalo o levava. Brincou com as aranhas feitas com garrafa pet, cantando a música "Dona Aranha". Pintou borboletas com os dedos e cola colorida. Observou os móbiles feitos com a borboleta. As músicas o incentivaram a acompanhar os gestos e os movimentos desses animais imitados pelas professoras.
Felipe termina o semestre fazendo novas aprendizagens e se desenvolvendo. Felipe sinaliza às professoras a lhe oferecerem novos desafios no segundo semestre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário