quinta-feira, 23 de maio de 2013

Livros, histórias e faz de conta: uma paixão que pode ser despertada desde que somos bebês

Os estudiosos e os pensadores da área (Magda Soares, Fanny Abramovich, ...), defendem a ideia; os escritores (Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Eva Funari, Tatiana Belink) escrevem livros para nos provar;  as crianças pedem que lhes contemos histórias... o que falta para que nós, professores e professoras, adiramos à ideia?
Quem assistiu à socialização do projeto a seguir (CEJAS, outubro/2012) sabe que a literatura infantil passou a ter em minha vida uma importância crucial. Os livros e as histórias me conectaram às crianças de uma forma sui generis. Às vezes eu tinha a impressão que eu entrava mais nas histórias que inventava do que as próprias crianças. Não que as crianças se mostrassem desinteressadas e sim porque, no fundo, quando o adulto vive o sentido da fantasia, ele já retornou à sua própria necessidade de ouvir histórias.
Aproveito para publicar o projeto, que na ocasião de sua vivência recebeu a valiosa colaboração da minha colega Profª. Adelita. Não o publico, na verdade em seu formato original. Acrescento a ele algo que venho defendendo reiteradamente, que é a inclusão das atividades de cuidado, que prefiro chamar de educação de cuidados.
Percebo ainda olhares céticos de minhas colegas em relação à importância de nós, professoras, prevermos como faremos a educação de cuidados, uma vez que nos parece "óbvia" sua ocorrência. Porém. as coisas mais simples quando concebidas podem ser também as mais complexas na prática. Por isso, todas as pessoas que um dia adentraram uma sala de berçário concordarão que a prática pedagógica das professoras que educam bebês é, nas tarefas educacionais, tão similar em importância quanto educar em qualquer outra idade, ou seja, a vida toda do ser humano.   

Projeto: Comendo sanduíche com a Maricota


Objetivo de ensino:

- Pretendemos, com esta temática, colaborar com a construção de novos conceitos na criança, oferecendo a história “O sanduíche da Maricota” como possibilidade de vivenciar situações reais e de faz-de-conta.

Objetivos de aprendizagem:

- Vivenciar a história “O sanduíche da Maricota” de forma individual e coletiva, participando dos momentos de audição da história com interesse e entusiasmo;

- Participar da confecção do sanduíche da Maricota, observando e tocando nos seus ingredientes, manifestando desejo e concordância nos momentos de degustação;

- Expressar conforto, curiosidade na confecção dos materiais para a criação das galinhas de prato de papelão e com bexigas;

- Demonstrar alegria na interação com os personagens do livro "O sanduíche da Maricota" que serão colados em forma de painel.

Ações pedagógicas:

Chegada: as crianças estarão no portão da nossa sala, esperando-me e darão gritinhos de "bom dia" quando eu adentrar no portão principal do Centro. Pretendo chegar, durante a vigência deste projeto, como nos demais dias: cumprimentarei cada criança, dando-lhe a mão, sorrindo para ela e sempre que eu puder, se houver a menor chance, eu ainda a abraçarei com emoção. Em seguida, como já vem ocorrendo de uns tempos para cá, perguntarei se querem que eu conte uma história e eu sei que elas me apoiarão. Pegarei um livro na prateleira e todas já estarão sentadas no colchão. Sei que haverá brigas, briguinhas e brigonas, daquelas que vão me tirar o fôlego. Mas depois que a paz reinar, continuarei contando a história como se não fosse nada. Sei que terei de parar várias vezes para receber crianças que virão depois das oito horas. Mas sei, também, que quase nenhuma delas vai se dispersar, porque eu direi assim: - Muito bem, a prô vai receber nosso amiguinho, colocar sua mochila aqui em cima no parapeito da janela do trocador e vamos continuar nossa história. Assim funcionará de certa forma quase em todos os dias. Sei que nos interlúdios de uma história e outra terei vontade de cantar com e para as crianças e assim farei. Também poderei um dia me sentir cansada e preferirei sentar com as crianças no chão, brincando com elas e ouvindo-as expressarem-se em seu repertório oral. Sei que farei ainda outras coisas nesse momento que aqui eu denomino de chegada. Para o imprevisto, terei a saída de registrar em relatório, previsto para depois da ação vivida com as crianças.
Café da manhã: esta refeição será a primeira do dia. Teremos de ir ao refeitório mas antes ajuntaremos os brinquedos espalhados no chão da sala e, para isso, solicitaremos a ajuda das crianças. Haverá as que imediatamente concordarão com a tarefa; haverá outras que, ao invés de colocar os brinquedos no local indicado, segurarão os brinquedos ou jogarão de volta, ao chão, os que já estavam armazenados. Enfim, esta hora, às vezes, necessita de uma intervenção bem "pedagógica": a do convencimento. Poderemos observar comportamentos variados. Nós, professoras, elogiaremos os bons ajudantes, solicitaremos os que não querem colaborar... até que tudo esteja no lugar. Depois chegará a hora de abrir o portão e todos seguirão. Algumas crianças irão de mãos dadas com as professoras. Levaremos os que tendem a se dispersar pelo caminho. Talvez a dispersão tenha a ver com a autonomia das crianças dessa idade. Porém, não quereremos nos afastar delas, uma vez que na hora que saem do nosso campo de visão, poderão ter adentrado em ambientes não propícios para o momento. As crianças do Berçário II já alcançaram a estatura para segurar maçanetas e abrir portas.  É claro que no trajeto ao refeitório haverá outros desafios para as professoras: fazer com que todos cheguem juntos. O café da manhã, às vezes, parece ser a refeição menos esperada pelas crianças. Vamos ter de incentivá-las a querer experimentar o que será oferecido. Rodeando-as na mesa, falaremos do alimento, talvez tenhamos que experimentá-lo para que fiquem curiosas. Se forem oferecidas frutas, algumas crianças poderão rejeitar, já percebemos isso outras vezes. É preciso fazer um bom marketing das frutas para as crianças. Os hábitos alimentares que incluem frutas no cardápio do café da manhã são salutares. Crianças tendem a imitar mais do que fazer o que os adultos dizem para fazer.
Almoço: quando se aproxima a hora do almoço, metade do dia já se terá passado para algumas crianças e outras ainda permanecerão até mais um tanto de horas até a chegada de um membro da família para buscá-las. A hora do almoço é uma das atividades mais importantes do cotidiano dos bebês. Muitas aprendizagens são realizadas, algumas das quais pela oportunidade de repetir as ações. Novamente as crianças farão o trajeto, para algumas, cheio de aventuras. Ao chegarem próximos da mesa, serão ajudadas a tomar seus lugares. Geralmente prestamos atenção quem senta perto de quem, pois algumas crianças se mostram mais voluntariosas na proximidade, seja por ciúme, seja porque simplesmente não se sentem confortáveis de sentarem-se tão próximas umas das outras. As professoras vão reunindo dados advindos da observação diária das crianças e se utilizam do conhecimento sobre as crianças para fazerem as intervenções nos conflitos. O prato de comida será oferecido às crianças junto com a colher e como sempre acontece, elas logo começam a levar os alimentos à boca. Necessitamos ficar atentas a cada movimento.Será preciso observar a quantidade de comida que cada criança ingerirá, pois pela pouca idade e por estarem em processo de manejar a colher com habilidade, muitas vezes o alimento é derramado fora do prato, no chão, na roupa e bem pouco onde deve chegar: à boca. O almoço contém os alimentos energéticos e construtores do organismo humano, por isso a necessidade da atenção total das professoras. Será indicado que o refeitório esteja relativamente calmo e silencioso, isso ajudará as crianças a comer com mais apetite, sem agitação ou pressa.
Café da tarde: o café da tarde acontecerá, como sempre, como uma atividade do cotidiano, com horário previamente definido. Depois de tirar uma soneca, as crianças geralmente estão de bom humor, revigoradas e assim, tomar um café gostoso é muito bem-vindo. As crianças de período vespertino estarão juntas às demais que vieram pela manhã. As professoras vão distribuir os alimentos, fazendo menção à variedade do cardápio. Assim como nas demais refeições do dia, as crianças serão orientadas a cuidar para que não esparramem muito alimento na mesa e esta insistência faz com que depois, nos anos seguintes de frequência à educação infantil, mostre-nos que elas conhecem os bons modos à mesa e possam demonstrar que o processo civilizatório foi bem iniciado. Não podemos esquecer que nenhuma criança se educa a ela mesma. Os adultos, pais, mães, professoras e demais pessoas que a educam são, em grande medida, o modelo que vão imitar. Por isso, o psiquiatra Ivan Capelatto insiste na ideia de disseminar a ideia de Winnicott, de que uma criança precisa de um cuidador "suficientemente" bom, isto é, alguém que queira ser cuidador lúcido, consciente de sua responsabilidade e de sua tarefa de "ser" para essa criança.
Soninho: a psicóloga Gabriela Monea, em entrevista cedida à jornalista Flavia Werlang, afirma que uma criança entre um e três anos necessita de doze a quinze horas de sono por dia. Se ela dormir de dez a doze horas por noite, restarão, pelo menos, mais duas ou três horas para o ciclo se tornar completo. Por isso, o soninho nos Centros de Educação Infantil é um momento muito importante da rotina vivida pelas crianças. O déficit de horas de sono para a criança acarreta dificuldade na aprendizagem e incide no comportamento, fazendo com que ela responda com irritação aos estímulos do ambiente, além de torná-la impaciente e agitada. O sono tranquilo recupera as energias e devolve o bom humor à criança. A hora do soninho receberá, assim, especial atenção das professoras. Um colchão macio, uma coberta quentinha, um carinho nas crianças que têm desconforto na hora de pegar no sono, assim se conceberá a hora de dormir. Cada criança terá seu ritmo respeitado, pois em suas casas há uma diversidade de hábitos e costumes. A criança necessita de um tempo para se dar conta que no Centro há uma sequência de atividades que estão lá para que ela possa se sentir segura. Se até nós, adultos, sentimos insegurança quando adentramos um novo ambiente, o que esperar da criança que está apenas começando a conhecer o mundo em que vive.  

Brincadeiras livres no pátio ou na área coberta: dentre as atividades de maior relevância no dia a dia de nosso Centro estão as brincadeiras na área externa. As crianças serão levadas à área externa para que brinquem umas com as outras, com as motocas disponíveis, com potinhos recicláveis, com bolas, com bonecas, com balões e o que surgir, segundo as vontades que as crianças expressarem. Ficaremos atentas às brincadeiras das crianças, às interações que elas estabelecerem, às atitudes em relação à presença de outros adultos, além de nós, professoras. Um olhar atento sobre a brincadeira revela que : "No brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade" (Vigotsky). Durante as brincadeiras poderemos identificar quais linguagens predominam no grupo, como as crianças vão se apropriando do espaço, como vão superando movimentos amplos e finos, como se relacionam no compartilhamento de objetos e de brinquedos.


 Troca de fraldas, roupas, higiene das mãos e ida ao banheiro: as crianças entre um e dois anos começam a perceber o que vestem. Quando são convidadas a trocar as fraldas, as roupas ou a fazer a higiene das mãos elas podem concordar tanto quanto se negar a nos acompanhar até o trocador. Com o avançar dos dias do ano, as crianças vão percebendo que atividades são realizadas no trocador e, às vezes, elas não se interessam muito em parar a brincadeira. Como essa reação faz parte desta faixa etária, tomaremos o cuidado para não tornar esse momento desprazeroso, a ponto de termos sempre uma criança contrariada e um adulto tendo que lutar contra seu próprio sistema límbico que se degladia com o da criança. Haveremos de achar o meio termo. Tenho como saída propor algo que a criança queira trocar por aquilo que estava fazendo. Aqueles livros que geralmente não podemos dar a elas em grupo e que geram conflitos podem ser uma boa saída. No trocador, então, enquanto trocamos sua fralda, ela poderá se entreter com aquele livro tão cobiçado. Na hora de lavar as mãos, já percebemos, as crianças querem manipular o frasco com o sabonete líquido. Essa autonomia e com nossa ajuda, será um bom motivo para que lavem as mãos. Também, no trocador, poderemos explorar os pertences da mochila. Vamos oralizar claramente as ações que serão feitas durante a troca de roupas e fraldas.
Escovação de dentes: as crianças do Berçário II estão prontas a iniciar a escovação de dentes desde o princípio do ano. Temos certeza que a higiene será deficiente mas os ganhos nas habilidades de manuseio e na compreensão do sentido e da necessidade, inestimável. A escovação de dentes vem sendo organizada desde o começo da seguinte forma: as crianças são direcionadas a sentarem-se depois da refeição umas próximas às outras. Uma das professoras distribui segura as escovas e o creme dental. Uma a uma as escovas são entregues às crianças, chamando-as pelo nome. Dizer o nome completo da criança nesse momento é algo fantástico. Tornamos esse momento tão "pedagógico" quanto qualquer outro do cotidiano. As crianças ficam sabendo algo com o qual lidarão a vida toda: as pessoas têm nome e sobrenome. Evitamos, assim, apelidos indesejáveis e sobretudo, teremos como expressar nosso respeito pela identidade familiar delas. Ainda que o motivo exposto seja suficiente, escovar os dentes desta forma poderá nos dar a oportunidade de, aos poucos, conversar sobre o que comemos e do porquê necessitamos fazer a higiene dos dentes. Cantaremos a  música "Meus dentinhos".  
Atividades relacionadas à temática: as atividades a seguir ocupam em tempo e grau de importância o mesmo lugar que as atividades que são desenvolvidas para atender as necessidades básicas das crianças. Não se pode imaginar que uma criança possa esperar, ao pedir um copo d'água, que nós terminemos uma tarefa como as abaixo relacionadas. Por isso, parece-me indiscutível que um grupo de crianças esteja em condições de participar da audição de uma história ou de uma pintura com tinta guache sem que suas necessidades estejam minimamente satisfeitas. É claro que sempre haverá percalços, mas...
- Como o grupo de crianças do Berçário II são grandes apreciadores de livros e histórias da literatura infantil, contaremos a elas que temos uma novidade, um novo livro: “O Sanduíche da Maricota”. Contar a história com o auxílio das ilustrações.

- Fotocopiar o livro e recortar as ilustrações. Fazer um painel com a sequência das gravuras, colar na altura das crianças, de modo que elas possam apontar, falar, fazer observações. As professoras poderão explorar o painel com perguntas relacionadas aos personagens e sobre os acontecimentos da história. Observar como as crianças se relacionam com esse enredo. Utilizar as reações observadas para provocar perguntas nas crianças e a expressão de linguagens como a oral, gestual, musical e a pictórica.

- Confeccionar com as crianças duas galinhas, a partir de prato de papelão, convidando-as as ilustrarem e carimbarem as mãos e os dedos com guache. Expor na sala o material, nominando uma a uma, de modo que possam reconhecer sua galinha depois de pronta.

- Encher duas bexigas e dizer as crianças que transformaremos esses dois balões cheios numa galinha, como a Maricota. Convidar as crianças a colar tiras de papel de revista nos balões untados com cola, de modo a fazer pelo menos duas camadas. Depois de tudo seco, emendar os dois balões com cola quente, acrescentar penas para as asas e o rabo, fazer bico, crista e pernas. Todos os acréscimos serão feitos na presença das crianças, de modo que elas possam acompanhar a confecção, até a versão final da galinha. Utilizar a galinha no dia da confecção do sanduíche da Maricota.

- Convidar as crianças para a preparação de um sanduíche, como o da Maricota. Apresentar os ingredientes: alface, tomate, queijo, presunto, milho, ervilha, ovo, pão, margarina e pão Degustar o sanduíche com a turma, comentando o sabor dos ingredientes. Observar o envolvimento das crianças.

Um comentário:

  1. Feliz, encantada, animada,...
    A participação na Oficina: "Contando para encantar: uma forma de educar" com Rosane Welk e Carmen foi simplesmente encantadora.
    Obrigado por fazerem avivar a chama da paixão pela música e contação de histórias na educação infantil em todos os presentes!
    Estou cantando até agora, acho que vou dormir cantando, acordar cantando...
    E quem não gosta de música, não é mesmo?
    Afinal, cantar e contar histórias sempre envolve alguns imprevistos. O importante é não ter medo.
    Com carinho...Alessandra de Lana Camargo (CMEI Anélia Enke Karsten)

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