quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Silêncio: os bebês estão falando!

Tenho me ocupado com a leitura da Dissertação de Mestrado de Rosinete Valdeci Schmitt na ânsia de compreender os bebês que hoje tanto me convidam a aprender observá-los.
E por que os quero observar?
Porque a linguagem dos bebês é a que mais me emociona atualmente.
Ainda hoje, enquanto caminhava depois do trabalho, passo por uma jovem mãe, sentada no ponto de ônibus entre tantos outros que aguardavam o transporte público. Seu pequeno bebê, embrulhado em uma manta, era chacoalhado numa cadência que só as mães sabem porque o fazem. O bebê, de olhos muito vívidos e abertos, estava atento a observar o tumulto de pessoas indo e vindo, subindo e descendo dos ônibus. Pareceu-me o melhor dos expectadores. Eu vi nesse bebê uma capacidade de apreender da realidade e do seu entorno tanto quanto qualquer outro ser humano que por ali se encontrava, ainda que nós, adultos, sempre coloquemos os bebês como seres imaturos demais para interagir com competência. E foi esta constatação que devo à leitura de Schmitt e que gostaria de alargar a seguir.
"Mas eu não falo a língua deles": as relações sociais de bebês num contexto de educação infantil é o título que Schmitt desenvolve através de pesquisa etnográfica, com quinze bebês de quatro meses a um ano e três meses,  no município de Florianópolis, no ano de 2008.
O principal objetivo da pesquisadora foi conhecer e analisar as relações sociais constituídas com bebês e entre eles num espaço público de educação infantil.
Os resultados apontaram que os bebês são capazes de estabelecer múltiplas relações, envolvendo adultos, outros bebês e crianças maiores, atravessadas, essas relações, das condições materiais e significação desse espaço.
Também apontaram que as ações pedagógicas de cuidado das professoras, além de representarem encontros próximos entre adultos e bebês, proporcionaram, concomitantemente, um tempo e espaço de encontro entre os bebês, de se relacionarem uns com os outros e com o ambiente implicando a necessidade de uma preocupação além da ação direta dos educadores mas também sobre sua ausência/distanciamento frente ao grupo.
Choro, sorrisos, balbucios, risos, sons, palavras, movimentos foram as expressões comunicativas dos bebês, asseguradas segundo processos de desenvolvimento que vão sendo ampliados conforme significados constituídos nas relações coletivas.
Schmitt afirma que as "formas expressivas das crianças não são inatas mas constituídas socialmente na relação com outras pessoas, imbricadas com aspectos culturais, históricos, econômicos, de etnia, de gênero, de geração" (2008, p. 10). Assim percebo o que recomenda a autora, que é preciso estabelecer o diálogo com os bebês e crianças pequenas para perceber o que nos indicam sobre o que são, o que sentem e como constituem suas infâncias no espaço coletivo. Ao mesmo tempo, considerar o bebê e a criança competentes socialmente não minimiza sua condição de dependência dos adultos.
O interessante nesta pesquisa é que ela se enveredou pelo caminho de conhecer os bebês como protagonistas para além daquilo que o adulto propõe. Sua contribuição está na constituição de uma prática pedagógica docente respeitosa quanto aos direitos das crianças.
Quando nos propusermos observar os bebês sem a intenção de descrevê-los mas realmente enxergá-los como pessoas que são, abandonaremos o discurso de como os bebês são e de como devem ser.

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