Preocupa-me, reiteradamente, como professoras de bebês
concebem sua atividade profissional. Por um lado, professoras convictas da
importância; por outro, professoras desestimuladas pelo não reconhecimento
social desta atividade.
Deparei-me com a Dissertação de Mestrado de Fabiana Duarte
(UFSC) que pesquisou as dimensões educativas que constituem a especificidade da
ação docente de professoras de bebês. A partir desta produção de pesquisa com
professoras de bebês na rede pública municipal de Florianópolis, surge a
pergunta:
- O que especifica como docência aquilo que fazem professoras
de bebês?
Duarte afirma que há uma especificidade na prática docente
com bebês que se diferencia de ser professora de crianças maiores. Para
Garanhani (2010) ser professora de bebês denota uma docência marcada por
relações e que, por serem vivenciadas com bebês, são mais intensas. Dentre as
especificidades de ser docente na educação infantil está a compreensão de que
toda criança tem um corpo e uma história e que se relaciona com a movimentação
de seu corpo e com sua história pessoal.
Garanhani (2010), citada por Duarte, também afirma que ser
professora de educação infantil é estar atenta e respeitar as individualidades,
as diferenças e as condições que cada criança apresenta na interação com os
outros.
Para esclarecer melhor o que marca a docência com bebês,
Tristão (2004) e Garanhani (2010) (citados por Duarte) reforçam três pontos
sobre a pedagogia que reconhece e está atenta à criança, sua história e sua
individualidade:
- nega professoras e
crianças que não podem se encontrar numa relação individualizada e
personalizada;
- nega que as pequenas lições têm mais importância do que as
brincadeiras de livres descobertas;
- nega tempos e espaços rígidos que podem enfraquecer a
espontaneidade das crianças.
Duarte também cita Schmitt (2008). Segundo esta autora,
professoras de bebês relacionam-se com os bebês através de enunciados que
ultrapassam a linguagem verbal. A forma como a professora organiza os bebês
para uma brincadeira, a maneira como ela disponibiliza objetos a sua altura, o
contato que ela estabelece durante a troca de fraldas, por exemplo, diz ou não do
quanto acredita nas potencialidades de comunicação e de se relacionar dos
pequenos.
Ser professora de bebês significa deixar se afetar pela
presença deles e afetá-los igualmente com sua presença. Cada professora vai
exprimindo o que sente e como sente a presença de seus bebês e como se
responsabiliza por eles.
Defendo aqui a ideia de que as professoras podem comunicar ao
mundo a importância de seu trabalho com os bebês quando se debruçam a pensar
sobre suas ações cotidianas com eles. Isto se dá através do ato de planejar.
Planejar para projetar-se para o futuro. Planejar para observar as peculiaridades de prever ações e intenções
para e com os bebês. Planejar para surpreender-se, para renovar-se, planejar
para estar viva para os bebês.
Segundo Tristão (2004), as professoras precisam pensar em
seus bebês com alguém que tem um corpo a ser cuidado, mas muito mais bebês como
atores sociais competentes. Por isso, a necessidade de organizar uma prática
docente comprometida com eles. Ao mesmo tempo que a professora interfere no
“ser bebê”, os bebês também interferem reciprocamente na constituição do ser
professora de bebês.
Tristão (2004) chama atenção sobre a ação docente para com
bebês ser constituída de sutilezas. Uma profissão caracterizada pela sutileza é
afeita de ações quase imperceptíveis no dia-a-dia. São atitudes próprias das
professoras de bebês, necessárias mas de pouca visibilidade.
Outro fator que marca a prática docente com bebês é a
comunicação com eles. À medida que o tempo de convívio aumenta, aumentam as
formas de comunicação que se vão estabelecendo e estas ficam mais fluentes. O
tempo é um aspecto importante na docência da professora de bebês. As crianças
pequenas necessitam viver um ritmo próprio, necessitam de mais tempo, tempos
longos, como afirma Barbosa (2010). Por isso, uma rotina que engessa os ritmos
não combina com bebês. São as ações de cuidado que orientam o cotidiano e esse
aspecto peculiar norteia em grande medida a docência com bebês. O cotidiano,
segundo Barbosa (2010) é mais abrangente do que a rotina. O cotidiano é um
espaço-tempo fundamental para a vida humana, onde há possibilidade de encontrar
o inesperado, o improvável, a inovação, o extraordinário. Assim, as atividades
de rotina são um dos elementos que integram o cotidiano. Batista (1998) alerta
que a estrutura rígida, uniforme e homogeneizada dificulta a vivência dos
direitos das crianças em suas múltiplas dimensões.
Não encerrando o assunto, deixo desta feita um apelo às
professoras de bebês: a teoria é nosso suporte, a prática nosso norte. A lucidez
uma bandeira e a reflexão uma necessidade cotidiana quando se é professora de
bebês.
Nenhum comentário:
Postar um comentário