quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ciência e reavaliação: como a biruta do aeroporto

Meu trabalho atual se caracteriza, dentre outras atribuições, por visitas de acompanhamento às professoras de Berçário nos Centros de Educação Infantil. Este papel não se assemelha a de uma pesquisadora acadêmica, porém,  certamente, remete-me corroborar com Fernanda Carolina Dias Tristão, que em 2004 defendia sua dissertação na Universidade Federal de Santa Catarina, elaborando algumas ideias genuínas sobre o trabalho realizado por professoras de bebês em uma creche de Florianópolis, onde permaneceu cinco meses como pesquisadora.

Tristão escreve sobre o que acontece quando a professora concebe os bebês como seres competentes. Afirma que as possibilidades do trabalho pedagógico com os bebês se amplia muito. Os meninos e meninas reais com os quais ela conviveu nos meses de pesquisa, mostraram que há espaço para que as ações pedagógicas possibilitem brincadeiras que envolvem a fantasia, a imaginação, o companheirismo, a cumplicidade, o contato com crianças de outras idades semelhantes ou de outras idades, o desafio de explorar materiais e recursos e ambientes diferentes. De minha parte afirmo que as salas de bebês não necessitam, por exigência advinda de um lugar desconhecido, assemelhar-se, pela assepsia do ambiente, a quartos de hospital ou, quando ao contrário, a salas destituídas de harmonia ou toque de cuidado. Sobretudo, ao adentrar nas salas que visito, é possível reconhecer quem são as adultas professoras que habitam com seus bebês aquele espaço de vida coletiva.

A dissertação de Tristão também aborda a importância de conhecer cada uma das crianças e suas famílias, estabelecendo parcerias. O respeito para com as particularidades de constituição das famílias das crianças é indispensável. Um dos pontos fundamentais de respeito para com as famílias  e para com as próprias professores pelo trabalho que elas realizam é a prática da documentação. Esta documentação revela o cotidiano de crianças e adultos na unidade de educação infantil, por intermédio de diversas formas de registro, otimizando a comunicação entre ambos.

Por outro lado, não é possível fazer-se ver o que primeiro não é visualizado por suas protagonistas, isto é, as próprias professoras. Um misto de incredulidade e desconcerto se mescla no semblante das profissionais que atuam no berçário, sempre que menciono que todas as atividades realizadas com as crianças deveriam estar contempladas pelo planejamento. Parece que Tristão também sentiu o mesmo com a professora que ela acompanhou. Ela afirma: "O mesmo permito-me afirmar do seu planejamento - o escrito estava muito aquém do que acontecia em um dia no berçário: planejava atividades; os relacionamentos, os banhos, os momentos de sono ou de alimentação (que, devo ressaltar, eram marcados por muita intensidade), não eram pensados".

Tristão pergunta se nos cursos de formação as professoras estariam aprendendo a registrar, documentar e planejar. Nas próprias palavras da autora: "Registro e planejamento são ensinados como instrumentos elementares da prática pedagógica ou são ensinados como formalismos de uma instituição burocrática? Aprendem a planejar tempos, espaços e relações como determinantes da atuação pedagógica ou apenas coisas a serem feitas - atividades?" Lamenta, acrescentando: "É uma pena que práticas, como as da professora que acompanhei, não sejam respaldadas na reflexão ancorada nos registros e planejamentos. É por meio desses que o trabalho docente ganha visibilidade, torna-se concreto, pode ser discutido, elaborado e avaliado".

A autora finaliza esta parte da reflexão afirmando que não há manual de como ser professora de bebês e crianças pequenas. Poder-se-ia contar com o conhecimento produzido da experiência docente das professoras mas "que só pode ser apreendido e compartilhado se estiver escrito".

Algumas egressas do curso de Pedagogia poderiam afirmar que eu, como professora que fui neste curso, tampouco discuti práticas relacionadas a bebês e crianças pequenas. E todo o Colegiado de professores da época, sobretudo, pelo momento histórico, por inúmeras questões de que hoje estamos cientes. É justamente este um dos motivos pelo qual é necessário, que eu, incansavelmente, erga essa bandeira. Ontem não sabíamos. Hoje temos a obrigação de não continuar ignorando.

As pesquisas que venho lendo dizem-me todo dia: o futuro da educação infantil começa hoje. Se nos empenharmos a estudar, a nos atualizar, a discutir, a rever nossas concepções poderemos afirmar, junto com a velocidade da evolução dos bebês: todos os dias aprendemos algo novo. E nossa aprendizagem na educação infantil é ascendente. Quanto mais estamos com eles, melhores docentes nos tornamos, se continuarmos estudando e refletindo.

Só a ciência tem o estatuto para mudar de ideia. O senso comum nos aprisiona no dogma.       

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