Num dos vídeos exibidos na TV Escola, lançado após a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2010), a profª. Drª. Zilma de Oliveira explica o termo "Experiências com" que compõe o Currículo dessa etapa da Educação Básica. Esse termo "Experiências com" requer que reflitamos mais sobre o que temos proposto às crianças de 0 a 5 anos.
A profª. Drª. Suely Amaral Mello afirma que as crianças estão explorando o mundo o tempo todo enquanto nós, professores/as, estamos "quebrando a cabeça" na tentativa de achar o que oferecer a elas.
O conhecimento sistematizado, aquilo que compõe o patrimônio da humanidade ao longo da história dos homens sobre a terra, (por exemplo, o algarismo 2 vem após o 1 no sistema decimal, nosso alfabeto tem 26 letras e sua sequência é a, b, c etc.) não deveria ser uma preocupação do/a professor/a da Educação Infantil. Contudo, o entendimento dessa ideia "Experiências com" é muito difícil para muitos de nós. Continuamos emprestando o Currículo do Ensino Fundamental e deixando de explorar aquilo que as crianças deveriam conhecer primeiro: o mundo como ele se apresenta. Os adultos são os responsáveis por organizar aquilo que as crianças não conseguem buscar pela sua condição.
Nessa tentativa de oferecer às minhas crianças uma pequena parcela de novas "experiências com", sistematizei um planejamento que, por estar organizado da maneira como está, permite que eu faça registros sobre suas reações e possa ser uma professora pesquisadora enquanto desenvolvo minha prática pedagógica. São os protagonistas da Educação Infantil em ação: eu, a me observar e retomar, caso não fique satisfeita com os resultados de minha ação, e, as crianças, a quem dirijo meu olhar atento para perceber reações, aprendizagem, desenvolvimento.
Eis a que me proponho:
Agosto
de 2015
Escrever
com giz de quadro em TNT colado sobre a mesa.
Escrever
com carvão em papel craf e folhas brancas.
Escrever
com canetões em caixas.
Desenhar
com pincel e guache em papelão afixado na cerca.
Desenhar
com pincel na parede de azulejo.
Pendurar
roupas com grampo de madeira em corda de varal.
Pendurar
figuras recortadas de revista no varal com grampos de roupa.
Colar
figuras recortadas de revista em papel craft.
Objetivo
Geral:
-
Proporcionar às crianças experiências de contato com objetos novos, suportes e instrumentos de escrita para que possam sentir esses materiais em suas diferentes texturas, bem como oportunizar momentos de expressão das diferentes linguagens (oral, escrita, plástica, gráfica, matemática, corporal, musical,...) presentes na cultura humana historicamente acumulada.
-
Observar e registrar o maior número de reações das crianças através de fotos, vídeos e registro escrito.
Objetivos
específicos:
-
Expressar sensações e sentimentos proporcionados pelas experiências e pelos materiais disponibilizados.
-
Falar, agir, gesticular, rir, cantar e outras manifestações possíveis durante as experiências.
JUSTIFICATIVA:
As
crianças com o passar do tempo de convívio conosco revelam a
importância que damos a elas, aos eventos, às atividades do
cotidiano e àquelas que privilegiamos e que trazem a nossa marca.
Alguns
desses aspectos creio ter alcançado plenamente: as crianças já
perceberam que eu gosto de cada uma em especial e me dirijo a elas
com respeito e carinho. Que os livros e as histórias são presença
constante em nosso convívio. Que a comunicação por conversas,
explicações, músicas e movimentos também são atividades
presentes. Que suas necessidades de comer, beber água, serem
asseadas e confortadas nos momentos de choro são importantes para
mim.
Mas
está na hora da turma ser desafiada com novas vivências. Por isso,
o elenco das “experiências com” são imprescindíveis nesse
momento. Uma das justificativas que dou para proporcionar novas
experiências com materiais de produção artística é a
desvalorização que a expressão pela arte vem tendo nos níveis
subsequentes à Educação Infantil. Outras linguagens são muito
mais valorizadas e privilegiadas. Falamos tanto em vidas com
qualidade, voltar ao simples, ser criativo, solidário com os
problemas da humanidade. Para que tenhamos uma geração mais
sensível é preciso começar logo, uma vez que elas levarão parte
daquilo que fomos.
AÇÕES
(Não
escreverei mais “pedagógicas” porque minha função como
professora não é outra senão nesse sentido. Uma ação planejada,
sistematizada e registrada não é outra coisa que de cunho
pedagógico se feita por uma professora. E não tem a ver com exitosa
ou fracassada. Para isso invocamos um quarto elemento: a observação
reflexiva).
ESCREVER
COM GIZ DE QUADRO EM TNT COLADO SOBRE A MESA: Colocar à disposição
das crianças giz de cera, tnt preto afixado na mesa da sala para que
façam suas produções.
ESCREVER
COM CARVÃO EM PAPEL CRAF E FOLHAS BRANCAS: Fixar papel craft no muro
do solário e oferecer carvão para as crianças fazerem suas
produções.
ESCREVER
COM CANETÕES EM CAIXAS: espalhar caixas de papelão e canetões no
solário para que as crianças possam desenhar em seu interior e no
lado externo.
DESENHAR
COM PINCEL E GUACHE EM PAPELÃO AFIXADO NA CERCA. DESENHAR COM PINCEL
NA PAREDE DE AZULEJO: Fazer desenho com tinta guache em azulejo,
papel craft. (Quero fazer um parênteses a respeito. Tenho como
objetivo proporcionar a elas a oportunidade de utilizar tinta guache.
Seja com pincel, seja com as mãos, seja pintando em azulejo ou papel
craft. A organização desse momento exige que tenhamos sol,
camisetas para cobrir as roupas, tempo não frio, baldes e panos para
lavar as mãos, local preparado para a ação das crianças e uma
pessoa que possa nos auxiliar em caso de urgência. Essas condições
não ideais faz com que eu tenha desistido até agora da empreitada.
Aliás, deveria ser corriqueiro que as crianças pudessem ter contato
com esses materiais. Dito isso, vou me encorajar).
PENDURAR
ROUPAS COM GRAMPO DE MADEIRA EM CORDA DE VARAL. PENDURAR FIGURAS
RECORTADAS DE REVISTA NO VARAL COM GRAMPOS DE ROUPA: estender corda
de varal na sala. Oferecer grampos de roupa de madeira para que as
crianças pendurem pequenos tecidos. O mesmo com folhas brancas que
acabaram de desenhar e também figuras recortadas de revista. Esta
brincadeira poderá acontecer no solário e na sala.
COLAR
FIGURAS RECORTADAS DE REVISTA EM PAPEL CRAFT AFIXADO NA PAREDE DO
SOLÁRIO: As crianças têm muita curiosidade em mexer com cola e
imitar nossa ação de colar coisas. Elas já observaram inúmeras
vezes essa ação nas professoras e outros adultos. Creio que
gostariam de experimentar essa atividade.
Perguntas
que me farei:
-
Quem manifestou interesse nas atividades?
-
Como as crianças reagiram aos materiais?
-
Que elementos novos foram observados no comportamento deles durante as atividades?
-
Quais crianças mais se identificaram e com qual atividade?
-
Como reagiram no começo e no término da atividade?
-
Quais as dificuldades dos adultos durante a proposição das atividades?
-
Quais atividades causaram mais entusiasmo e quais menos?
-
Que momentos inusitados podem ser destacados?
-
Como transcorreu o tempo utilizado para a atividade? Faltou, foi tumultuado, em demasia?
-
Que destaques podem ser registrados sobre as experiências com?
O planejamento termina aqui. Mas o processo de aprendizagem docente mal começou. Uma última questão: é possível que os profissionais da Educação Infantil continuem pensando que ler e escrever não é parte da profissão?
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