domingo, 3 de novembro de 2013

A vida dos bebês como indicadores para melhorar a prática pedagógica dos/as professores/as

Tenho me deparado constantemente, nas salas de berçário que visito, com bebês que reagem de diferentes maneiras à minha presença. À primeira vista poderia supor que as reações deles são expressões de desaprovação e desconforto. Já cheguei a me perguntar até que ponto tenho o direito de "invadir" esse espaço, subentendido dos bebês, de suas professoras e dos demais profissionais que atuam próximos ao berçário.

Se não fossem as produções acadêmicas (teses e dissertações) sobre e com os bebês, publicadas pelas universidades nesta última década, bem poderia concluir que, de uma vez por todas, os bebês devem ser deixados em paz. Não deveríamos expô-los a aceitar que adultos, como eu, alheios ao ambiente já "familiar", viessem perturbar o seu bem-estar.

Isto seria verdadeiro se considerarmos os bebês seres fragilizados, incapazes e inaptos a socializarem-se e a socializar os que com eles fazem contato. Ora, a criança desenvolve  nos primeiros anos de vida uma incrível capacidade comunicativa. Dentre alguns trabalhos que tenho lido e que argumentam a competência interacional de bebês está o de Joselma Salazar de Castro, intitulado "A constituição da linguagem e as estratégias de comunicação dos e entre os bebês no contexto coletivo da educação infantil", dissertação defendida no ano de 2011, na Universidade Federal de Santa Catarina, sob a orientação Eloísa Acires Candal Rocha. Esta pesquisadora defende que os bebês, ao interagirem com os pares e com aqueles que são diversos de si, crianças e adultos com características físicas, modos de agir e de pensar, com histórias e culturas diferentes, enriquecem o repertório criativo das crianças e ampliam as ações comunicativas que se constituem pela linguagem desses pequenos (p.23). Nas palavras de Castro (2011, p. 98) encontramos :

Ao refletir sobre essas estratégias de comunicação como constituidoras da linguagem entre os e dos bebês, torna-se importante pensar que, entre crianças que ainda não falam, os recursos comunicativos serão amplos e diferenciados do que se vê entre crianças maiores, já com o domínio da linguagem verbal. Nesse sentido, o corpo, os gestos, olhares, sorrisos, choros e algumas verbalizações, [...] foram observados como princípio para a compreensão de como o processo da linguagem, na sua complexidade, ocorre. 

Por isso, antes de pensar que os bebês sofrem ou se sentem melindrados com minha presença, vou entendê-los como seres componentes de uma geração específica, que têm como forte característica a dependência na satisfação de suas necessidades nos adultos mas que rapidamente são capazes de se apropriar das relações estabelecidas em seu entorno, como de sua composição.

E quando à minha presença reagirem com olhares de curiosidade, com sorrisos largos, com choro, escondendo-se atrás de suas professoras, sumindo pelos cantos da sala ou debaixo de berços, agarrando-se ao pescoço de algum adulto bem conhecido ou oferecendo-me brinquedos, abraçando-se a mim voluntariamente, sentando em meu colo, interagindo com brincadeiras diversas... saberei que se trata da linguagem de bebês, que se constitui pela interação com diferentes contextos históricos e sociais e se transformam continuamente pela sua própria ação e pela ação com outros sujeitos coetâneos, crianças maiores e adultos (Castro, 2011, p. 44).

Pelo exposto e com a ajuda elucidativa de pesquisas que têm privilegiado os bebês e crianças pequenas como sujeitos, sobre os quais começa-se a conhecer mais, graças à sociologia e à antropologia da infância, vou continuar querendo me aproximar mais e mais das salas de berçário pois, segundo Cerisara "o conhecimento sobre quem são as crianças, o que elas fazem, como brincam ou como vivem suas infâncias é, antes de tudo, um ponto de partida que possibilita elaborarmos indicadores para a prática pedagógica dos professores" (2004, p. 37-8).

Além de escolhermos como educar bebês, quem sabe incluamos contar com a ajuda deles para fazer-nos melhores profissionais da educação, pois como alerta Prout (2004), os adultos apresentam um caráter de inacabamento tanto quanto as crianças, e que, como característica humana, somente se avança no processo de humanização, por meio da socialização e da interação entre um sujeito e outro" (citado por Castro, 2011, p. 102).

Sendo assim, ainda que pertencentes a gerações diversas, alguma similitude sempre aproximará adultos e crianças.  
 

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