domingo, 17 de novembro de 2013

Meu encontro com Maria Carmen Barbosa

Participei esta semana de um encontro que considero inesquecível para minha formação profissional. Conheci pessoalmente a Profª, Drª Maria Carmen Silveira Barbosa. E para entender a satisfação desse encontro, insiro-a entre meus favoritos: José Saramago (que não poderei mais visitar na ilha espanhola de Lanzarote pois ele não voltará de carona nas intermitências da morte); Victor-Marie Hugo (que viveu de 1802 a 1885 e produziu o romance "Os Miseráveis", leitura que me causou uma sensação aveludada de escrever); Contardo Calligaris (que consegue me fazer ouvi-lo falar mesmo quando estou apenas lendo, porque, sobretudo, com ele aprendi a reconhecer que o que me passa devo procurar viver).

Maria Carmen Barbosa entrou em minha vida indiretamente, através de seus orientandos em pesquisas de mestrado e doutorado. Interessante o processo em que se deu essa inserção: primeiro li o que outras pessoas pesquisaram sob sua orientação e, por último, li o seu próprio trabalho que a habilitou a atuar como orientadora: "Por amor e por força: rotinas na educação infantil".  

Em nosso encontro não pude compartilhar que reconheço seu pensamento em cada trabalho que orientou nos últimos anos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não pude dizer que essas leituras são responsáveis por quase tudo que sei hoje a respeito de bebês (acrescidas as leituras, também sobre bebês, produzidas pelos cursos de mestrado e doutorado da Universidade Federal de Santa Catarina).  

Qualquer pessoa interessada em se apropriar do conteúdo de pesquisas orientadas por Barbosa, pode acessar o site da Universidade e encontrará, por exemplo, a dissertação de Paulo Sergio Fochi, intitulada "Mas os bebês fazem o quê no berçário, hein?": documentando ações de comunicação, autonomia e saber-fazer de crianças de 6 a 14 meses em contextos de vida coletiva. Este trabalho remete refletir sobre a imagem de criança que temos. Grande parte do desenvolvimento teórico da pesquisa embasou-se no que escreve Loris Malaguzzi, que Fochi trouxe através do seguinte excerto:

Existem cem imagens diferentes de criança. Cada um de nós tem em seu interior uma imagem de criança que orienta sua relação com ela. Essa teoria, em nosso interior, nos leva a um comportamento de diferentes maneiras: nos orienta quando falamos com a criança, quando escutamos a criança, quando observamos a criança. É muito difícil para nós atuar de forma contrária a esta imagem interna (1994).

Fiquei pensando na imagem interior que tenho dos bebês e também nas imagens que têm cada uma das professoras de bebês que tenho visitado, acompanhado e auxiliado na formação em serviço em nosso município. 

Pensei na graduação em Pedagogia e percebi que não foi apenas esse curso que faz hoje minha concepção de bebês (há de se dizer que, aliás, em muito pouco contribuiu porque de 1988 a 1991 não se falava muito de educação para bebês. Todo mundo evitava esse assunto pois bebês eram criaturas muito desprovidas de comunicação para que nós, adultos na época, estivéssemos preparados para entender, rs ).  

Pensei na minha experiência como mãe. Talvez de lá pudesse extrair informações suficientes para compreender os bebês. Mas percebi que a maioria das vezes o ditado acerta: "Em casa de ferreiro, o espeto é de pau". 

Voltei minhas certezas para minha infância, afinal eu me lembrava que quando tinha três anos nasceu Eliane, minha irmã, com a qual brinquei e até me indispunha ao reclamar para minha mãe que ela atrapalhava minhas brincadeiras de casinha, mexendo em tudo e desarrumando minhas xicrinhas. Também isso não pareceu fundante o suficiente para atrelar minhas concepções sobre bebês. 

Tive quase certeza que foi em 2010, quando a primeira vez trabalhei com uma turma de bebês como professora deles, quando aprendi de uma vez quem são, como são, o que fazem bebês. Mas logo me passou a certeza quando revisitei meus planejamentos, minhas reflexões nos relatórios diários que eu fazia, nas fotografias tiradas dos momentos com eles, dos objetos que possibilitei acesso, dos trabalhos que com eles desenvolvi através de meus projetos, dos móbiles que pendurei na sala, da altura em que pensei que devessem ficar os personagens das histórias que li. 

Percebi que a graduação em Pedagogia, a experiência de ter tido filhos e de conviver com irmãos, a docência de sala com bebês não foi nada suficiente. Constatei, principalmente que, assim como eu, muitas professoras tiveram experiências e vivências similares, sobretudo, muitas delas com longos anos em sala com bebês e ainda assim, práticas pedagógicas que me parecem insuficientes para reconhecer os bebês como pessoas de inteireza. Percebi, então, que meu contato com os bebês foi feito mais de equívocos do que de certezas. Por isso, sou tranquilizada pelas palavras finais da tese da professora Carmen:

Depois de tudo o que aprendemos nas ciências sociais do século XX,
é preciso que os educadores aceitem que os seres humanos
constituem em um campo onde agem distintas forças e que nós, os
educadores, também não somos nada mais do que aquilo que os
outros fizeram ou fazem de nós, e o que nós fizemos dessas
influências. Passa-se a vida inteira tentando forjar um eu, uma
identidade, mesmo que provisória, a partir das possibilidades e
escolhas que se tem. Mas por mais que se queira fazer deste eu uma
consciência una, autônoma, este eu vai continuar sendo cheio de
incertezas, mobilidade, de dúvidas. Este eu, é um eu formado de
outros, um eu permeado, não fixo. É um eu que emerge por amor e
por força.

No encontro com a Profª. Drª  Mariam Carmen houve um debate e uma professora levantou uma questão relacionada às Diretrizes Curriculares publicadas em 2009, sobre os eixos do currículo centrados nas relações e na brincadeira. Sua argumentação foi em relação à insuficiência das práticas pedagógicas com intencionalidade por parte das professoras, detectadas em um município catarinense. É esta a questão que decorre para o pedagogo: em que momento estamos com nossa formação concluída? Pode uma formação estar um dia concluída? Propostas e diretrizes dão conta por si só de sensibilizar os profissionais da educação a melhorar, a aperfeiçoar, a refletir sobre sua prática?

Conhecer Maria Carmen Barbosa deu-me pelo menos alguns caminhos:
- é preciso que nos revisitemos constantemente em nossas práticas e concepções;
- é preciso estudar muito;
- é preciso participar de cursos de formação em serviço e formação continuada;
- é preciso que reflitamos coletivamente os caminhos trilhados pela educação infantil;
- é preciso que nos despojemos de certezas e possamos buscar inovação nas dúvidas;
- é preciso buscar compreender o ser professor como uma atividade política;
- é preciso compartilhar nossas oportunidades (esta que faço aqui, por exemplo).

Termino com um pensamento de Lyotard, comentário em uma entrevista, que acessei pela tese de Barbosa, e que muito me diz sobre "ser" para o outro:

se eu devesse atribuir uma finalidade à educação - é uma pura hipótese da minha parte, - seria a de tornar as pessoas mais sensíveis às diferenças, de fazê-las sair do pensamento massificante. É preciso educar, instruir, nutrir o espírito de discernimento, formar para a complexidade (In: Kechikian, 1993, p.50).

Muito obrigada, Professora Lica!

domingo, 3 de novembro de 2013

A vida dos bebês como indicadores para melhorar a prática pedagógica dos/as professores/as

Tenho me deparado constantemente, nas salas de berçário que visito, com bebês que reagem de diferentes maneiras à minha presença. À primeira vista poderia supor que as reações deles são expressões de desaprovação e desconforto. Já cheguei a me perguntar até que ponto tenho o direito de "invadir" esse espaço, subentendido dos bebês, de suas professoras e dos demais profissionais que atuam próximos ao berçário.

Se não fossem as produções acadêmicas (teses e dissertações) sobre e com os bebês, publicadas pelas universidades nesta última década, bem poderia concluir que, de uma vez por todas, os bebês devem ser deixados em paz. Não deveríamos expô-los a aceitar que adultos, como eu, alheios ao ambiente já "familiar", viessem perturbar o seu bem-estar.

Isto seria verdadeiro se considerarmos os bebês seres fragilizados, incapazes e inaptos a socializarem-se e a socializar os que com eles fazem contato. Ora, a criança desenvolve  nos primeiros anos de vida uma incrível capacidade comunicativa. Dentre alguns trabalhos que tenho lido e que argumentam a competência interacional de bebês está o de Joselma Salazar de Castro, intitulado "A constituição da linguagem e as estratégias de comunicação dos e entre os bebês no contexto coletivo da educação infantil", dissertação defendida no ano de 2011, na Universidade Federal de Santa Catarina, sob a orientação Eloísa Acires Candal Rocha. Esta pesquisadora defende que os bebês, ao interagirem com os pares e com aqueles que são diversos de si, crianças e adultos com características físicas, modos de agir e de pensar, com histórias e culturas diferentes, enriquecem o repertório criativo das crianças e ampliam as ações comunicativas que se constituem pela linguagem desses pequenos (p.23). Nas palavras de Castro (2011, p. 98) encontramos :

Ao refletir sobre essas estratégias de comunicação como constituidoras da linguagem entre os e dos bebês, torna-se importante pensar que, entre crianças que ainda não falam, os recursos comunicativos serão amplos e diferenciados do que se vê entre crianças maiores, já com o domínio da linguagem verbal. Nesse sentido, o corpo, os gestos, olhares, sorrisos, choros e algumas verbalizações, [...] foram observados como princípio para a compreensão de como o processo da linguagem, na sua complexidade, ocorre. 

Por isso, antes de pensar que os bebês sofrem ou se sentem melindrados com minha presença, vou entendê-los como seres componentes de uma geração específica, que têm como forte característica a dependência na satisfação de suas necessidades nos adultos mas que rapidamente são capazes de se apropriar das relações estabelecidas em seu entorno, como de sua composição.

E quando à minha presença reagirem com olhares de curiosidade, com sorrisos largos, com choro, escondendo-se atrás de suas professoras, sumindo pelos cantos da sala ou debaixo de berços, agarrando-se ao pescoço de algum adulto bem conhecido ou oferecendo-me brinquedos, abraçando-se a mim voluntariamente, sentando em meu colo, interagindo com brincadeiras diversas... saberei que se trata da linguagem de bebês, que se constitui pela interação com diferentes contextos históricos e sociais e se transformam continuamente pela sua própria ação e pela ação com outros sujeitos coetâneos, crianças maiores e adultos (Castro, 2011, p. 44).

Pelo exposto e com a ajuda elucidativa de pesquisas que têm privilegiado os bebês e crianças pequenas como sujeitos, sobre os quais começa-se a conhecer mais, graças à sociologia e à antropologia da infância, vou continuar querendo me aproximar mais e mais das salas de berçário pois, segundo Cerisara "o conhecimento sobre quem são as crianças, o que elas fazem, como brincam ou como vivem suas infâncias é, antes de tudo, um ponto de partida que possibilita elaborarmos indicadores para a prática pedagógica dos professores" (2004, p. 37-8).

Além de escolhermos como educar bebês, quem sabe incluamos contar com a ajuda deles para fazer-nos melhores profissionais da educação, pois como alerta Prout (2004), os adultos apresentam um caráter de inacabamento tanto quanto as crianças, e que, como característica humana, somente se avança no processo de humanização, por meio da socialização e da interação entre um sujeito e outro" (citado por Castro, 2011, p. 102).

Sendo assim, ainda que pertencentes a gerações diversas, alguma similitude sempre aproximará adultos e crianças.  
 

sábado, 12 de outubro de 2013

O dia, a semana, o ano da criança: entre o paradoxo e as possibilidades

Desde os meus primeiros anos na escola, não na educação infantil, a proximidade do mês de outubro me animava. Alguma atividade diferente ia acontecer. Havia os famosos piqueniques, quando abandonávamos o pátio da escola e íamos nos divertir em algum lugar aprazível, com lanche preparado para a ocasião e brincadeiras de molhar os pés no riacho do pasto onde ficávamos longas horas a aproveitar. Boas lembranças... e, quando encontro alguém dessa época, que experimentou piqueniques como aqueles, é quase certo que as memórias serão compartilhadas, sempre emocionados pelo prazer que nos ofereceram.

Por que lembramos dessas ocasiões mesmo depois de 20, 30 anos transcorridos? O que têm essas vivências de tão perenes que não as esquecemos? Para que serviam esses dias passados fora das salas de aula, sem, aparentemente, muita conexão com os  conteúdos do currículo escolar?  

Outros tempos vieram. Inimaginável para muitas crianças de hoje participar de momentos como aqueles. Não sei se as crianças sabem o que é um piquenique com a turminha da escola mas  essa experiência foi substituída por outra, que, convenhamos, não sei se pode ser denominada de experiência: as crianças de agora ganham presentes no dia da criança. O comércio agradece.  
Desde 1988, quando pela Constituição Federal a criança passou a ser considerada um sujeito de direitos (os tais piqueniques aconteceram antes de 1988), as transformações da mentalidade dos adultos em relação à criança e à infância pouco ascenderam, instalando um paradoxo: a criança cada vez mais considerada, ao lado de uma criança cada vez mais isolada do convívio social. Por isso Sarmento e Pinto (1997), inspirados em Qvortrup (1995), destacam aspectos que podem nos fazer refletir sobre a forma como as crianças são compreendidas a partir da ótica dos adultos, o que quase autoriza a dizer que, realmente, devemos muito mais do que presentes às crianças. Os adultos, inauguram, assim, um grande paradoxo pelo fato de:

desejarem e gostarem das crianças, apesar de “produzirem” cada vez menos crianças; de cada vez disporem de menos tempo e espaço para elas e de cada vez mais viverem separadamente seu cotidiano; de valorizarem a espontaneidade das crianças, mas cada vez mais estas serem submetidas às regras das instituições; de postularem que deve ser dada prioridade às crianças, mas cada vez mais as decisões políticas e econômicas que envolvem a vida das crianças são tomadas sem as terem em conta; de concordarem que deve ser dada às crianças a melhor iniciação à vida, ao mesmo tempo em que estas permanecem longamente afastadas da vida social; de que devem ser educadas para a liberdade e para a democracia, ao mesmo tempo em que as organizações sociais dos serviços para a infância se assentem no controle e na disciplina; no reconhecimento do valor atribuído às escolas pela sociedade, sem que estas reconheçam o papel da criança na produção do conhecimento.*  


Quero agora voltar meu olhar para a educação dos bebês e das crianças pequenas, que não fazem piqueniques e nem se sentem como as crianças da escola fundamental, mas que compartilham grande parte de suas vidas com adultos e outras crianças e para as quais as atenções se voltaram esta semana de modo especial. As crianças da educação infantil compartilham com as crianças maiores o paradoxo levantado por Sarmento e Pinto. Por outro lado, levantam a hipótese de que há mais e outras possibilidades de estarem elas em pleno uso de seus direitos se os adultos começarem a ampliar sua visão sobre o mundo infantil e as culturas infantis. Se o dia da criança, a semana da criança forem expandidas para ano da criança (todos os anos), certamente haverá não só piqueniques em outubro mas vivências intensas o ano todo, com encontros de crianças de diferentes idades e  turmas, interações com professoras de outras turmas, com a presença de adultos que cantam, dançam e fazem dramatizações constantemente, com planejamento coletivo e principalmente, alegria no semblante do adulto. Do adulto? Sim, de um adulto mais leve, que pode proporcionar intervenções constantes pois vê crianças em pleno gozo do seu direito de ser criança.




 Parabéns a todos os adultos que conseguirem fazer o ano inteiro ser da criança.  


* Excerto extraído da tese de doutorado de Leila Lira Peters, sob o título: "Brincar para quê? Escola é lugar de aprender! Estudo de caso de uma brinquedoteca no contexto escolar". UFSC, 2009, p. 17.


Este texto foi inspirado por minha amiga Cármen, que, com sua sensibilidade e atenção, permitiu-me aprofundar esta reflexão.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Histórias sobre o bebê que fui

Considero ínfimo meu tempo de experiência com bebês e crianças pequenas. Mas não é nada insignificante a quantidade de mudanças que ocorreram em mim a respeito do trabalho como professora de bebês nos últimos meses, principalmente quando me deparo com um convite à reflexão como faz Malaguzzi (1994) nesta passagem:

"Existem cem imagens diferentes de criança. Cada um de nós tem em seu interior uma imagem de criança que orienta sua relação com ela. Essa teoria, em nosso interior, nos leva a um comportamento de diferentes maneiras: nos orienta quando falamos com a criança, quando escutamos a criança, quando observamos a criança. É muito difícil para nós atuar de foma contrária a esta imagem interna".  

Grande parte inconsciente, a forma como eu fui bebê ainda está em mim, assim como a forma que minha mãe educou seu bebê (eu).

Munha mãe contava, com grande orgulho, duas passagens. A primeira aconteceu quando eu tinha mais ou menos nove meses e já ficava perfeitamente em pé, se apoiada. Uma amiga de minha mãe parou, um dia, de carro, em frente a nossa casa e me convidou, aos nove meses, para um passeio. Lá fui eu, de pé sobre o acento do carro, que ainda era daqueles inteiriços, afinal isto já faz muito tempo! Minha mãe contava que eu voltei do passeio, depois de mais de duas horas, sem ter feio xixi na calcinha. (Pasmem, aos nove meses eu já estava sem fraldas!) A amiga de minha mãe tinha me segurado para fazer xixi, como faziam as avós há muito tempo.

A segunda passagem que ouvi inúmeras vezes sobre meu "ser bebê" foi a do martelo. Na casa acoplada à escola em que nós morávamos, havia um janelão que ia até o chão. As mulheres da comunidade, impressionadíssimas, perguntavam a minha mãe como sua filhinha, tão pequena, ainda não quebrara o vidro da tal janela. Satisfeita e conclusiva, minha mãe respondia: "é que eu não dou um martelo na mão dela!"

Essas imagens são prevalentes e interferem, como fatos memoráveis, em minhas concepções a respeito de bebês e crianças pequenas. E novas perguntas surgem da reflexão que a memória me suscita: 
- O que faço com minhas memórias?
- Como me constituí através dessas memórias e até que ponto elas me constroem professora de bebês?
- Como me humanizo através de minhas memórias para ser uma adulta mais consciente de seu papel como professora de bebês?
- O que quero para os bebês na sociedade atual?
- Os bebês de hoje se parecem com o bebê que fui?
- Que concepções orientam práticas que veem os bebês como atores sociais competentes, autônomos, capazes, protagonistas e independentes?

Sinalizo algo que não posso mais ocultar: responda-me estas perguntas e dir-te-ei se acreditas que há  infâncias e crianças. 



terça-feira, 1 de outubro de 2013

A música estava lá mas o silêncio falou mais alto

Aruna Noal Correa, logo nas primeiras páginas de sua tese de doutorado escreve assim: "[...] somos aquilo que vivemos, somos nossas experiências, positivas ou negativas". Este pensamento consta em sua tese, que recebeu o título de "Bebês produzem música? O brincar musical de bebês em berçário", defendida, neste ano, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação de Maria Carmen Barbosa. (Hora dessas dispenso a formalidade e passo a chamá-la de uma vez por todas de "Lica" pois ando me achando já íntima de suas ideias, de sua perspicácia e conhecimento a respeito de bebês). 

Correa investiga a competência sonoro-musical de bebês e hipotetiza, baseada nas afirmações de Schafer (2001), que "se os bebês tiverem contato com a música, de forma mais instigante, que trabalhe a curiosidade musical no seu cotidiano, quem sabe possam vir a ser diferentes daqueles bebês que foram os adultos de hoje. Adultos esses que, como eu, ou você deixam de escutar a música ou a paisagem sonora que entra por nossa janela, o tempo todo, sem que a reparemos" (Correa, 2013, p. 19).

Pois então...

Na minha casa sempre houve música. Não fui um bebê que se dividiu entre casa e Centro de Educação Infantil. Lembro-me, sim, das babás que me cuidaram enquanto minha mãe trabalhava como professora. Ela tocava acordeon e cantava muito e sempre. Ensaiava cantos líricos com o pastor e havia uma promessa nesse ramo em outro país, que ela, na verdade, nunca perseguiu como um sonho a realizar.

O que minha mãe fazia para compensar o que a vida não podia lhe proporcionar, uma vez que o casamento já lhe incumbia de duas filhas, foi ser uma professora apaixonada por música. Não havia dia em que cantar faltasse em sua sala de aula. Utilizava-se do acordeon, inclusive, o que somava muito mais emoção aos momentos de canto com seus alunos.

Esta tese de doutoramento de Correa alargou meu olhar sobre o que significa a presença da música nos berçários. Aruna (2013, p. 52) cita John Cage que sinaliza: "Música é sons, sons a nossa volta, quer estejamos dentro ou fora de salas de concerto." Os autores mencionados me auxiliaram a compreender, principalmente Brito (2003, p. 35), que "[...] o processo de musicalização dos bebês e crianças começa espontaneamente, de forma intuitiva, por meio do contato com toda a variedade de sons do cotidiano, incluindo aí a presença da música".

Por esse critério, fui um bebê privilegiado. Tomava, certamente, contato com os sons do mundo e sobretudo, com a música que minha mãe cantava ou tocava no seu acordeon, ou as duas coisas juntas. É claro que isto não me tornou uma exímia em música. Sequer domino algum instrumento musical. Defendo, apenas, que a presença da música nos berçários se caracteriza como uma brincadeira do bebê, fazendo os primeiros sons, as primeiras manifestações sonoro-musicais como uma de suas linguagens.

Sobretudo, nós, adultos, precisamos entender, como afirma Correa (2013, p.22) que música não é sempre aquela que a televisão ou o aparelho de som traz. E, esta sensibilidade precisa ser apresentada de outra forma [...]". Bem como, segundo Ilari (2006, p. 294), "[..] não há qualquer garantia de que as experiências musicais tornem o bebê um ser mais inteligente". Assim, o objetivo de fazer/oferecer o contato com música aos bebês para além do brincar sonoro-musical que o bebê já produz seria ter em mente que "[...] o princípio é a experiência com sons" argumenta Barulhar de Lino (2008, p. 24).

Em meu caso particular, fui um bebê exposto à música e em minha memória se inscreveu um gosto, hoje traduzido na certeza de que a harmonia dos sons sensibiliza bebês até quando estamos fazendo o som do silêncio profundo. 

domingo, 29 de setembro de 2013

Desejar, ler, encontrar...

Já é tarde... preciso dormir  mas esta história tenho de contar hoje ainda.
Conheci um professor, doutor em Educação Infantil, mas eu não sabia disso naquela manhã.
Nossa equipe de Educação Infantil da Secretaria de Educação foi visitar a Secretaria onde ele era um dos diretores. Fomos ciceroneados em visita a três Centros de Educação Infantil e depois recebidos na Secretaria de Educação. Passamos o dia com Altino José Martins Filho, autor da tese: "Minúcias da vida cotidiana no fazer-fazendo da docência na educação infantil", defendida no primeiro semestre deste ano, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação da Profª. Drª Maria Carmen Barbosa. De novo ela, a sensível Lica, como seus orientandos intimamente a chamam.

Voltamos para nosso município naquele dia e eu ignorando com quem tínhamos passado o dia, porque, às vezes, não procuramos nos ater ao nome completo de uma pessoa. Foi por isso que eu só soube que tinha conhecido o autor da tese que li no fim de semana passado, como quem devora um romance de Vitor Hugo ou de José Saramago, meus autores favoritos, na segunda pela manhã, quando minha colega leu o nome completo de quem havia acordado em nos receber como visitantes.

São tantas as passagens que mexeram comigo na pesquisa de Martins Filho mas por hora, pelo adiantado de meu cansaço hoje, só quero deixar uma ideia que encontrei no texto deste autor: a de que o cuidado é inerente à profissão de professor\a de educação infantil. Mas a supervalorização da dimensão cognitiva é tão difundida  na sociedade ocidental que ao cuidarmos de nossas crianças  pensamos que a desativamos, só a retomando quando voltamos a desenvolver as propostas ditas de "cunho pedagógico".

Sinto-me compelida a compartilhar mais de minhas reflexões em função da leitura do trabalho do professor Altino. Durmo com a vontade e sei que vou acordar perseguindo a oportunidade.


Dedico este texto a minha amiga e colega de trabalho Cármen, que não foi conosco em visita mas é testemunha do que um deslocamento geográfico pode provocar numa professora quando o desejo a move.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ciência e reavaliação: como a biruta do aeroporto

Meu trabalho atual se caracteriza, dentre outras atribuições, por visitas de acompanhamento às professoras de Berçário nos Centros de Educação Infantil. Este papel não se assemelha a de uma pesquisadora acadêmica, porém,  certamente, remete-me corroborar com Fernanda Carolina Dias Tristão, que em 2004 defendia sua dissertação na Universidade Federal de Santa Catarina, elaborando algumas ideias genuínas sobre o trabalho realizado por professoras de bebês em uma creche de Florianópolis, onde permaneceu cinco meses como pesquisadora.

Tristão escreve sobre o que acontece quando a professora concebe os bebês como seres competentes. Afirma que as possibilidades do trabalho pedagógico com os bebês se amplia muito. Os meninos e meninas reais com os quais ela conviveu nos meses de pesquisa, mostraram que há espaço para que as ações pedagógicas possibilitem brincadeiras que envolvem a fantasia, a imaginação, o companheirismo, a cumplicidade, o contato com crianças de outras idades semelhantes ou de outras idades, o desafio de explorar materiais e recursos e ambientes diferentes. De minha parte afirmo que as salas de bebês não necessitam, por exigência advinda de um lugar desconhecido, assemelhar-se, pela assepsia do ambiente, a quartos de hospital ou, quando ao contrário, a salas destituídas de harmonia ou toque de cuidado. Sobretudo, ao adentrar nas salas que visito, é possível reconhecer quem são as adultas professoras que habitam com seus bebês aquele espaço de vida coletiva.

A dissertação de Tristão também aborda a importância de conhecer cada uma das crianças e suas famílias, estabelecendo parcerias. O respeito para com as particularidades de constituição das famílias das crianças é indispensável. Um dos pontos fundamentais de respeito para com as famílias  e para com as próprias professores pelo trabalho que elas realizam é a prática da documentação. Esta documentação revela o cotidiano de crianças e adultos na unidade de educação infantil, por intermédio de diversas formas de registro, otimizando a comunicação entre ambos.

Por outro lado, não é possível fazer-se ver o que primeiro não é visualizado por suas protagonistas, isto é, as próprias professoras. Um misto de incredulidade e desconcerto se mescla no semblante das profissionais que atuam no berçário, sempre que menciono que todas as atividades realizadas com as crianças deveriam estar contempladas pelo planejamento. Parece que Tristão também sentiu o mesmo com a professora que ela acompanhou. Ela afirma: "O mesmo permito-me afirmar do seu planejamento - o escrito estava muito aquém do que acontecia em um dia no berçário: planejava atividades; os relacionamentos, os banhos, os momentos de sono ou de alimentação (que, devo ressaltar, eram marcados por muita intensidade), não eram pensados".

Tristão pergunta se nos cursos de formação as professoras estariam aprendendo a registrar, documentar e planejar. Nas próprias palavras da autora: "Registro e planejamento são ensinados como instrumentos elementares da prática pedagógica ou são ensinados como formalismos de uma instituição burocrática? Aprendem a planejar tempos, espaços e relações como determinantes da atuação pedagógica ou apenas coisas a serem feitas - atividades?" Lamenta, acrescentando: "É uma pena que práticas, como as da professora que acompanhei, não sejam respaldadas na reflexão ancorada nos registros e planejamentos. É por meio desses que o trabalho docente ganha visibilidade, torna-se concreto, pode ser discutido, elaborado e avaliado".

A autora finaliza esta parte da reflexão afirmando que não há manual de como ser professora de bebês e crianças pequenas. Poder-se-ia contar com o conhecimento produzido da experiência docente das professoras mas "que só pode ser apreendido e compartilhado se estiver escrito".

Algumas egressas do curso de Pedagogia poderiam afirmar que eu, como professora que fui neste curso, tampouco discuti práticas relacionadas a bebês e crianças pequenas. E todo o Colegiado de professores da época, sobretudo, pelo momento histórico, por inúmeras questões de que hoje estamos cientes. É justamente este um dos motivos pelo qual é necessário, que eu, incansavelmente, erga essa bandeira. Ontem não sabíamos. Hoje temos a obrigação de não continuar ignorando.

As pesquisas que venho lendo dizem-me todo dia: o futuro da educação infantil começa hoje. Se nos empenharmos a estudar, a nos atualizar, a discutir, a rever nossas concepções poderemos afirmar, junto com a velocidade da evolução dos bebês: todos os dias aprendemos algo novo. E nossa aprendizagem na educação infantil é ascendente. Quanto mais estamos com eles, melhores docentes nos tornamos, se continuarmos estudando e refletindo.

Só a ciência tem o estatuto para mudar de ideia. O senso comum nos aprisiona no dogma.