sexta-feira, 3 de março de 2017

Pensar, refletir, planejar: a transformação das ações cotidianas

Grande parte da infância das crianças pequenas nos atuais tempos é vivida em instituições de Educação Infantil. Este marco histórico data muito recente no Brasil, uma vez que paulatinamente às crianças pequenininhas deu-se o direito à vaga em função da etapa da Educação infantil fazer parte da Educação Básica (LDB/96). Vivenciar coletivamente as primeiras experiências junto a outras crianças têm sido um diferencial para as crianças pequenas, dantes educadas exclusivamente pelas famílias.

Famílias e Centros de Educação Infantil compartilham a educação das crianças e é nesta parceria que se percebe um entrelaçamento de valores, práticas e crenças que envolvem adultos e crianças no cotidiano.

As crianças pequenas, peculiarmente, as das turmas de Maternal, que beiram a chegada do terceiro aniversário durante o ano letivo, requerem o atendimento de necessidades fundamentais de sobrevivência, o que se denomina como alimentação, descanso, higiene.

A construção da autonomia e do controle da vontade pelas crianças nesse momento de suas vidas é um dos pilares a sustentar o enfrentamento, a vivência e o investimento desse cotidiano. A caracterização das vivências de atividades no âmbito coletivo, como as refeições, o uso do banheiro e a hora do descanso está atrelada aos costumes, aos valores e às concepções dos adultos que organizam esse cotidiano.

Um rápido olhar sobre as atividades desse cotidiano pode levar a pensar que sua organização é simples e não necessita de reflexão constante. Por outro lado, a reflexão apurada e complexa revela que no decorrer da passagem do tempo, crianças e adultos vão se modificando pelas interações e hora parece haver avanços e hora parece haver pequenos retrocessos no encaminhamento das ações. A constante retomada da orientação às crianças, seja no banheiro, seja no refeitório, seja na sala do descanso objetiva tornar mais corriqueiro e simplificado o comportamento da criança diante do que, no início do ano, se mostra bastante conturbado. Ao mesmo tempo que a criança avança em sua autonomia (por exemplo, retira sua roupa e senta para fazer xixi, lava as mãos e seca sem ajuda, escova os dentes, deita no colchão e começa a dormir, alimenta-se sozinha e é capaz de informar sua saciedade ou não, etc), ela também percebe novas possibilidades de fazer brincadeiras durante a vivência desses momentos, uma vez que ela não encara a sequência das atividades que “tem” de ser cumpridas da mesma forma que o adulto. Por isso, um enorme investimento de energia é solicitado ao adulto nesses momentos, o que acarreta a consciência por parte deste de que seu papel na Educação Infantil convoca sua grande disponibilidade em orientar a criança nos primeiros anos de vida nesses aspectos da sua humana condição.


A cultura, na qual todos estamos inseridos, dá-nos a maior parte das pistas do que desejamos para as crianças e nesse sentido trabalhamos o currículo da Educação Infantil, privilegiando e valorizando o trabalho com a criança pois dele depende tudo o que se apresentará a ela depois.


Sendo assim, não se trata de dispensar o planejamento desses momentos. Ao contrário, pelo planejamento, tornamos a “rotina” pedagógica, tanto quanto queremos tornar os demais momentos, tradicionalmente já considerados dessa natureza. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O que vejo quando observo uma criança?


Se por princípio nascemos todos diferentes, então devemos partir da premissa que cada criança aprende e se desenvolve de modo único. 

Como professora de bebês que estão com a idade de um a dois anos, reiteradamente dou-me conta que uma das tarefas mais difíceis é acompanhar individualmente de que modo cada um deles reage/responde/incorpora as experiências da educação coletiva. 


Sabemos que a educação infantil oportuniza a convivência entre coetâneos e crianças de outras idades e que a exposição diária ao compartilhamento de objetos, brinquedos, espaços, e da atenção dos adultos gera conflitos que devem ser administrados. A esta “administração” quero chamar de intervenção pedagógica, que por ser pensada, sistematizada e organizada intencionalmente, surte um tal efeito, hoje tema de inúmeras pesquisas na área da Educação Infantil. Esse efeito é a capacidade que uma criança constrói, desde muito pequena, de desenvolver sua inteligência e personalidade “se” ela encontrar as condições favoráveis na instituição que frequenta. 

A esta altura do ano, com a aproximação da construção do primeiro texto que se caracteriza como o que vai informar aos pais o acompanhamento do processo educativo das crianças durante o primeiro semestre, faz-se necessário que se reúnam elementos para proceder essa análise. Ao mesmo tempo que esse é um argumento importante, existe ainda um outro: a visibilidade e a invisibilidade das crianças em suas vivências cotidianas, ofuscadas muitas vezes pelos atropelos que nos exigem e tomam a atenção. 

Sinto necessidade de prestar atenção em cada criança em especial, por um dia inteiro ou pelo período que permanece conosco, fotografando-a e anotando o que ela fez naquele dia em que a coloquei em foco. Não tenho em mente que o dia de cada criança seja o melhor vivido e sim, que o dia em que ela estiver em foco, eu tenha concentração e discernimento de prestar-lhe atenção a ponto de fazer uma avaliação do que se apresenta. 

Parece-me um compromisso inalienável por parte do profissional da educação infantil que ele se debruce sobre essa tarefa como aquela que, no fundo no fundo, fala de sua própria capacidade de observar as crianças e de selecionar aquilo que as representa, bem como de redigir o texto que faça a síntese.   


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um olhar sensível sobre o grupo de crianças: os adultos como parceiros desejáveis

A inserção da criança na Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, tem sido cada vez mais possível na maior parte dos municípios brasileiros. Estima-se que haja ainda muitas crianças a atender e se temos a crença de que a sua frequência é um diferencial na vida delas, isso complexifica nosso papel como profissionais dessa instância.

Quando as crianças nos chegam trazem já experiências e vivências diversas. Não nos cabe compará-las pensando que por terem nascido todas no mesmo ano, elas comportar-se-ão da mesma forma.

Ao observá-las bem de perto vemos reações muito ímpares mas todas um dia já registradas por estudiosos da área. Chorar muito e um pouquinho; gritar com todos os pulmões ou soluçar; colocar todo o pedaço de bolo na boca ou jogá-lo longe; comer como se fôssemos todos velhos conhecidos; bater em quem se aproxima ou aconchegar-se tristemente; deixar ser consolado ou empurrar quem está perto demais; morder ou beijar; ficar imóvel ou chorar no portão querendo saber por que a mãe a deixou aí; sentar e ouvir história, olhando, sorrindo ou se incomodando que as pernas do amigo estão encostadas nas suas; chorar porque, afinal, estão quase todos fazendo isso e se imitar é a lei da aprendizagem, então choramos juntos... Essas são algumas das reações das crianças recém-chegadas e ainda muitas semanas após o início dos trabalhos.


O que oferecer às crianças nos dois primeiros meses, reconhecidamente o período de familiarização com novos parceiros, adultos e crianças? Como proceder para abreviar o mal-estar pela separação dos pais, esses adultos amados e de confiança?

É preciso lembrar que cada criança percorre um processo individual de familiarização com o novo ambiente e o que funciona para uns, não repercute para outros.

Em minha prática, no primeiro mês em que novas crianças vem compondo a turma até chegar ao número dezesseis por período, percebi que os bebês têm necessidades, a maioria determinada pela condição cronológica. As seis crianças que têm menos de um ano e quatro meses requerem cuidados na condução pelos espaços do Centro e demonstram sua insegurança pelo novo ambiente através da expressão de estarem perdidos quando nos dirigimos ao parque, ao refeitório, ao solário. Dentre eles, porém, notamos uma criança que está demonstrando bom manejo da colher e do copo. Os demais precisam ser alimentados e estão começando a conhecer o uso social do talher, do prato e do copo.


Das nove crianças de um ano e quatro meses até os que completaram um ano e meio, apenas um se alimenta sozinho e bebe do copo com habilidade. Os demais também precisam ser alimentados, ainda que estejam iniciando o processo de levar à boca o alimento com a colher. Esse pequeno grupo está necessitando de mais tempo para se familiarizar com as atividades que ocorrem em outros espaços pois manifestam muitos momentos de desconforto, expressando-se pelo choro. Das cinco crianças que estão acima de um ano e meio, apenas uma está ainda bastante insegura no ambiente, chorando quando novos adultos frequentam a sala.

Interessante registrar que as destrezas motoras não estão explicadas pelo desenvolvimento físico. Entre uma das crianças que é do mês de dezembro e outra que nasceu em junho, existe uma enorme diferença. A primeira, mais jovem, faz e acontece; a outra, de junho, não consegue erguer a perna para subir no cavalinho. São as experiências e vivências diversas que essas crianças tiveram.

Dada essa enunciação da diversidade entre as crianças, uma pequena amostra apenas para justificar as escolhas que deverão ser feitas, podemos pensar no que temos oferecido até agora a elas e o que precisamos oferecer, uma vez que o objetivo da Educação Infantil é ampliar as experiências das crianças.

Organizar um espaço, que não seja uma sala desnuda, com objetos como livros, brinquedos, móveis foi o início. Mas, passado um mês de convívio com algumas crianças, percebe-se a necessidade de apresentar outros desafios.

Deixar as crianças interagir com o que já está exposto é uma atitude frequente. Mas é preciso levar novos objetos e brinquedos para que elas possam conhecer e criar brincadeiras. Por isso, será necessário continuar providenciando pelo menos:

 A organização de um espaço para que as crianças se sintam desafiadas a descobrir os efeitos de manipulação.


- O oferecimento de objetos e brinquedos que agucem a curiosidade.
- O acompanhamento das crianças nas brincadeiras, conversando, instigando-as oralmente.
- O respeito pela individualidade das crianças, aconchegando-as nos momentos em que demonstrarem desconforto emocional.
- O desenvolvimento da paixão pelos livros, contando histórias e descrevendo as imagens com detalhes, assim como na ampliação do vocabulário das crianças, investindo nos diálogos constantemente e no canto de músicas infantis.
- A estimulação para a manipulação de texturas, como tintas comestíveis, para ampliar a sensação tátil, uma vez que o corpo é um poço de possibilidades de aprendizagem.

O trabalho do profissional da Educação Infantil não pode ser solitário. Há de se planejar coletivamente as ações. Mas esse é um dos capítulos mais difíceis da história. Não sei porque estamos demorando tanto para levar a sério que juntos conseguiremos avançar mais do que em solidão. Talvez tenhamos que esperar um decreto governamental. Lamentável!



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Penso, logo planejo

Ainda em férias...
Vou à sacada e observo o mundo, o de dentro e o de fora de mim.
O sol dá ao dia uma luminosidade renovada. Deve ter feito mil promessas na noite de ano novo.
As árvores, os arbustos, as flores me dão a impressão de muito vivos e dispostos.
E eu, como estou?
Quando olho a mim mesma, o que percebo?
O que me dou neste dia e nos demais do ano que me farão brilhar, sorrir, encantar e seguir confiante?
Estou contando os feriados no calendário?
Planejo meus finais de semana ainda na estação do verão?
Penso em como economizar minhas energias e "aguentar" a árdua tarefa de ser professora?
Que pensamentos povoam meu cotidiano antes do recomeço do ano letivo?
Aproveito até o último minuto e faço de conta que não vai mexer comigo encontrar as crianças?
Adio as expectativas em relação ao meu novo grupo, afinal, devo respeitar meus últimos dias de férias?

Penso em outros profissionais e imagino que eles estão mais tranquilos do que eu e se saem melhor nos níveis de ansiedade diante da desafiante tarefa de se responsabilizar por crianças tão pequenas?
Por que estou lendo uma tese sobre documentação pedagógica?
O que pretendo privilegiar em 2016 que me dará satisfação e motivos para ir ao encontro de meu grupo de crianças?



Quais são minhas intenções ao me ater ao pensamento de que o que faço tem uma importância crucial na formação humana de meu novo grupo de crianças?


O que farei com o que faço todo dia com elas?


Como vou qualificar minha atuação e tornar o cotidiano mágico e interessante para as crianças e as demais adultas que trabalharão comigo?
Como gostaria que fossem documentados nossos encontros para que não se caracterizem apenas como uma tarefa exaustiva e sim transbordante de significado?

É que eu não sei não sonhar. O sonho é sobre o medo também, porque pensar sobre tudo dá muito medo. Quem tem medo se pega a pensar.

"Tudo que não invento é falso. Meu medo é inventado. Pode haver mais medo de fracassar do que as chances de errar que imaginamos?" (SIMIANO, 2015, p. 38). 

E nessa leitura*, que faço hoje, acho muitas respostas e consolo meu medo. Meu medo é meu respeito. Meu respeito é pelas crianças e pela minha profissão. Sigo lendo, garimpando ideias e novos olhares sobre antigas questões. O tesouro será construído aos poucos. Na reflexão e na renovação. Comecemos acreditando.

* Tese de Doutorado de Luciane Pandini Simiano: "Colecionando pequenos encantamentos... a documentação pedagógica como uma narrativa peculiar para e com as crianças bem pequenas", Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientadora: Profª. Dra Maria Carmen Silveira Barbosa. 2015.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eu desenho, tu desenhas. Mas eles não gostam.

Sou dessa geração tolhida de criatividade porque na infância tudo era quase proibido.
Não tocar, não mexer, não tentar... esperar até poder.
Tudo bem que agora tenha que fazer um enorme exercício como professora de bebês para não repetir e impingir meu próprio destino a eles. Mas... mães do século XXI, achei, já tinham superado essa mentalidade. Que nada!

Uma menina de dois anos risca os braços e é colocada a pensar sobre sua ação. Talvez ela tivesse alguns motivos pelos quais escolheu o próprio corpo como ideal para desenhar.

Mas tudo é uma questão de perspectiva.

Outra criança vem com os braços riscados de caneta e o pai pede desculpas na porta para a professora, como se quisesse dizer "Releve, ele só tem dois anos. É coisa da idade". Quem levaria a sério e pensaria que ele se tornará um arruaceiro?

Então eu vi, na contracapa de uma obra de literatura infantil o que escreveu a ilustradora sobre algo acontecido na infância. Conta ela que um dia foi ao seu quarto e desenhou na parede um sol enorme e grandes montanhas. A mãe, ao ver a "obra", não brigou. E a narradora finaliza: "E eu me tornei ilustradora".

São três momentos distintos com os quais tive contato e que me remetem à uma reflexão que não quer calar:
O que pensamos para as crianças?
O que vemos através de suas tentativas?
Que ordenamento é esse que não respeita a criação da criança?
Por que o mundo tem de ser tão pertencente ao adulto?
Por que logo escolhemos a lógica adultocêntrica e optamos sempre por nossas "ilustrações" como as únicas válidas?
Por que as crianças não devem fazer marcas em seu tempo?
Por que ainda o mundo não é um lugar democrático onde crianças e adultos convivem e se respeitam?

sábado, 8 de agosto de 2015

O que são "experiências com"?

Num dos vídeos exibidos na TV Escola, lançado após a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2010), a profª. Drª. Zilma de Oliveira explica o termo "Experiências com" que compõe o Currículo dessa etapa da Educação Básica. Esse termo "Experiências com" requer que reflitamos mais sobre o que temos proposto às crianças de 0 a 5 anos. 

A profª. Drª. Suely Amaral Mello afirma que as crianças estão explorando o mundo o tempo todo enquanto nós, professores/as, estamos "quebrando a cabeça" na tentativa de achar o que oferecer a elas.

O conhecimento sistematizado, aquilo que compõe o patrimônio da humanidade ao longo da história dos homens sobre a terra, (por exemplo, o algarismo 2 vem após o 1 no sistema decimal, nosso alfabeto tem 26 letras e sua sequência é a, b, c etc.) não deveria ser uma preocupação do/a professor/a da Educação Infantil. Contudo, o entendimento dessa ideia "Experiências com" é muito difícil para muitos de nós. Continuamos emprestando o Currículo do Ensino Fundamental e deixando de explorar aquilo que as crianças deveriam conhecer primeiro: o mundo como ele se apresenta. Os adultos são os responsáveis por organizar aquilo que as crianças não conseguem buscar pela sua condição.

Nessa tentativa de oferecer às minhas crianças uma pequena parcela de novas "experiências com", sistematizei um planejamento que, por estar organizado da maneira como está, permite que eu faça registros sobre suas reações e possa ser uma professora pesquisadora enquanto desenvolvo minha prática pedagógica. São os protagonistas da Educação Infantil em ação: eu, a me observar e retomar, caso não fique satisfeita com os resultados de minha ação, e, as crianças, a quem dirijo meu olhar atento para perceber reações, aprendizagem, desenvolvimento. 

Eis a que me proponho:  


Agosto de 2015

PLANEJAMENTO DE COM... para conhecer mais sobre como crianças aprendem e se desenvolvem


Escrever com giz de quadro em TNT colado sobre a mesa.
Escrever com carvão em papel craf e folhas brancas.
Escrever com canetões em caixas.
Desenhar com pincel e guache em papelão afixado na cerca.
Desenhar com pincel na parede de azulejo.
Pendurar roupas com grampo de madeira em corda de varal.
Pendurar figuras recortadas de revista no varal com grampos de roupa.
Colar figuras recortadas de revista em papel craft.

Objetivo Geral:
  • Proporcionar às crianças experiências de contato com objetos novos, suportes e instrumentos de escrita para que possam sentir esses materiais em suas diferentes texturas, bem como oportunizar momentos de expressão das diferentes linguagens (oral, escrita, plástica, gráfica, matemática, corporal, musical,...) presentes na cultura humana historicamente acumulada.

  • Observar e registrar o maior número de reações das crianças através de fotos, vídeos e registro escrito.

Objetivos específicos:
  • Expressar sensações e sentimentos proporcionados pelas experiências e pelos materiais disponibilizados.
  • Falar, agir, gesticular, rir, cantar e outras manifestações possíveis durante as experiências.


JUSTIFICATIVA:
As crianças com o passar do tempo de convívio conosco revelam a importância que damos a elas, aos eventos, às atividades do cotidiano e àquelas que privilegiamos e que trazem a nossa marca.
Alguns desses aspectos creio ter alcançado plenamente: as crianças já perceberam que eu gosto de cada uma em especial e me dirijo a elas com respeito e carinho. Que os livros e as histórias são presença constante em nosso convívio. Que a comunicação por conversas, explicações, músicas e movimentos também são atividades presentes. Que suas necessidades de comer, beber água, serem asseadas e confortadas nos momentos de choro são importantes para mim.

Mas está na hora da turma ser desafiada com novas vivências. Por isso, o elenco das “experiências com” são imprescindíveis nesse momento. Uma das justificativas que dou para proporcionar novas experiências com materiais de produção artística é a desvalorização que a expressão pela arte vem tendo nos níveis subsequentes à Educação Infantil. Outras linguagens são muito mais valorizadas e privilegiadas. Falamos tanto em vidas com qualidade, voltar ao simples, ser criativo, solidário com os problemas da humanidade. Para que tenhamos uma geração mais sensível é preciso começar logo, uma vez que elas levarão parte daquilo que fomos.


AÇÕES
(Não escreverei mais “pedagógicas” porque minha função como professora não é outra senão nesse sentido. Uma ação planejada, sistematizada e registrada não é outra coisa que de cunho pedagógico se feita por uma professora. E não tem a ver com exitosa ou fracassada. Para isso invocamos um quarto elemento: a observação reflexiva).

ESCREVER COM GIZ DE QUADRO EM TNT COLADO SOBRE A MESA: Colocar à disposição das crianças giz de cera, tnt preto afixado na mesa da sala para que façam suas produções.

ESCREVER COM CARVÃO EM PAPEL CRAF E FOLHAS BRANCAS: Fixar papel craft no muro do solário e oferecer carvão para as crianças fazerem suas produções.

ESCREVER COM CANETÕES EM CAIXAS: espalhar caixas de papelão e canetões no solário para que as crianças possam desenhar em seu interior e no lado externo.

DESENHAR COM PINCEL E GUACHE EM PAPELÃO AFIXADO NA CERCA. DESENHAR COM PINCEL NA PAREDE DE AZULEJO: Fazer desenho com tinta guache em azulejo, papel craft. (Quero fazer um parênteses a respeito. Tenho como objetivo proporcionar a elas a oportunidade de utilizar tinta guache. Seja com pincel, seja com as mãos, seja pintando em azulejo ou papel craft. A organização desse momento exige que tenhamos sol, camisetas para cobrir as roupas, tempo não frio, baldes e panos para lavar as mãos, local preparado para a ação das crianças e uma pessoa que possa nos auxiliar em caso de urgência. Essas condições não ideais faz com que eu tenha desistido até agora da empreitada. Aliás, deveria ser corriqueiro que as crianças pudessem ter contato com esses materiais. Dito isso, vou me encorajar).

PENDURAR ROUPAS COM GRAMPO DE MADEIRA EM CORDA DE VARAL. PENDURAR FIGURAS RECORTADAS DE REVISTA NO VARAL COM GRAMPOS DE ROUPA: estender corda de varal na sala. Oferecer grampos de roupa de madeira para que as crianças pendurem pequenos tecidos. O mesmo com folhas brancas que acabaram de desenhar e também figuras recortadas de revista. Esta brincadeira poderá acontecer no solário e na sala.

COLAR FIGURAS RECORTADAS DE REVISTA EM PAPEL CRAFT AFIXADO NA PAREDE DO SOLÁRIO: As crianças têm muita curiosidade em mexer com cola e imitar nossa ação de colar coisas. Elas já observaram inúmeras vezes essa ação nas professoras e outros adultos. Creio que gostariam de experimentar essa atividade.

Perguntas que me farei:
  • Quem manifestou interesse nas atividades?
  • Como as crianças reagiram aos materiais?
  • Que elementos novos foram observados no comportamento deles durante as atividades?
  • Quais crianças mais se identificaram e com qual atividade?
  • Como reagiram no começo e no término da atividade?
  • Quais as dificuldades dos adultos durante a proposição das atividades?
  • Quais atividades causaram mais entusiasmo e quais menos?
  • Que momentos inusitados podem ser destacados?
  • Como transcorreu o tempo utilizado para a atividade? Faltou, foi tumultuado, em demasia?
  • Que destaques podem ser registrados sobre as experiências com?
O planejamento termina aqui. Mas o processo de aprendizagem docente mal começou. Uma última questão: é possível que os profissionais da Educação Infantil continuem pensando que ler e escrever não é parte da profissão? 






domingo, 5 de julho de 2015

NADA DE NOVO

A vida de educadora me causa muito prazer e também muita angústia.
Observo-me no meio das crianças e vejo uma professora atormentada pelas condições da atual Educação Infantil brasileira. 
Sou responsável por tudo o que acontece a dezesseis crianças. Tanto as conquistas quanto as pendências. 
Esta semana foi entrega das avaliações do semestre de meu grupo. 
Grupo que efetivamente faz um mês que está comigo. 
Por isso acompanhei a professora que estava até então com ele. 
À medida que as conquistas das crianças foram sendo abordadas pela professora e respaldadas por pais e mães, fui percebendo como é difícil ter presente como estava e como está a criança, uma vez que o escrito nem sempre retrata os detalhes.
Fiquei imaginando se estou prestando atenção nas minúcias: das brincadeiras, na expressão das vontades e contrariedades, na necessidade de contato visual e físico, na descoberta do mundo, nas experiências novas, nas quedas e empurrões, nos choros e sorrisos, na relação entre os pares, enfim a tudo aquilo que demandam dezesseis crianças, das quais metade fez dois anos em junho e outra metade fará agora em julho.
Senti-me um tanto quanto impotente e incapaz de registrar tantas informações para seguir fazendo valer a educação que almejo. 
Senti-me amedrontada ao pensar que estou sendo inconsistente nas orientações que faço às crianças. Acho que são muitas crianças ao mesmo tempo clamando minha intervenção. 
Trata-se da consciência da responsabilidade.
A Teoria Histórico-Cultural ajuda-nos a pensar sobre essa capacidade que desenvolvemos durante a nossa vida de tornarmo-nos conscientes.
Conscientes sempre em relação a alguma coisa. 
A consciência humana é uma característica útil para qualquer pessoa, porém, aos educadores serve sobremaneira. 
E é por essa consciência que reclamo hoje aqui: estou me sentindo incapaz de desenvolver uma prática pedagógica a contento por estar responsável por dezesseis crianças ao mesmo tempo, porque uma lei foi mal elaborada e sacrifica grandes e pequenos. 
Poderia me calar e achar o máximo dos feitos dar conta da educação de todas elas. E vamos dando, para todos os efeitos. Mas a custa de quê?
Várias implicações depreendem-se da situação: exaustão do professor, relação pouco individualizada em consonância com as necessidades da criança tão pequena, dificuldade de observar e aludir aos desafios que a idade exige, qualidade prejudicada no atendimento aos desejos e necessidades da criança,  
Alguém vai dizer: mas você não está só. Tem uma parceria com outra profissional. Sim, geralmente isso aliviaria a situação. Porém, o fato de as dezesseis crianças dividirem o mesmo espaço, acaba por vincular uma educadora a todas na maioria das horas do dia. As pessoas que vivem essa realidade concordarão com essa explicação.  
A professora Suely Amaral Mello, em sua palestra (Indaial, abril/2015), defende que uma criança necessita de uma referência forte no adulto, de onde emana a confiança e a segurança para poder conhecer o mundo e explorá-lo com tranquilidade e que isso ocorre se houver nessa faixa etária um número razoável de crianças por educador. 
Estou insatisfeita com meu desempenho, mas talvez esse ônus não seja apenas meu.