sábado, 4 de março de 2017

Histórias: na trilha da humanização

A presença da contação de histórias na Educação Infantil tem um papel imprescindível na construção da imaginação, da inteligência e da personalidade das crianças. Crianças não nascem e crescem como plantas ou são tábulas rasas onde os adultos imprimem seus valores. Crianças são seres de experiência, pouca por sua condição, porém nascem aptas a aprender. E o fato de aprenderem o que lhes é ensinado as difere dos outros animais sobre a terra.

A capacidade de imaginar, de fantasiar, de criar imagens e transformar a realidade que circunda as crianças é fomentada em grande parte pela tradição dos adultos de contar histórias. Ouvir histórias torna as crianças aptas a entender, antes do tempo cronológico, como os adultos estruturam a cultura, que costumes defendem, que valores cultivam e que conhecimentos querem transmitir aos pequenos que veem o mundo pela primeira vez.

Nas turmas de crianças de até três anos ainda é muito indicado que se contem histórias baseadas nas imagens dos livros, bem como a dramatização da história pelo adulto. Elas iniciam também a fase de ouvir histórias sem a presença do suporte pois já conseguem fazer imagens mentais de personagens que lhes interessam, como animais, em sua maioria. 

Contar histórias deve ser um momento que compõe o cotidiano da Educação Infantil. As crianças desenvolvem o gosto pelas histórias ouvindo histórias. O prazer deve ser o convite para a criança sentar e aderir ao momento com seu grupo.

Ouvir histórias oferece à criança uma oportunidade de desenvolver a imaginação que se expande na medida em que a criança é exposta a fazer imagens mentais. Crianças que ouvem histórias podem se tornar mais inteligentes porque começam a argumentar, a nomear, a compreender fatos e situações que, sem as histórias, elas não teriam oportunidade de expressar. Uma das capacidades mais importantes que se desenvolve contando histórias para as crianças desde bem pequenas é o de fazer uso da linguagem oral com mais propriedade. A nomeação de ações também é favorecida pelas histórias que ouvem diariamente. Enfim, todo dia tem de ter história.


Atividades plásticas, práticas e lúdicas: todos os dias


Não faz muito tempo que o direito das crianças a ter uma infância foi reconhecido. Infância esta na qual o ser criança se caracteriza pela expressão de vontades, desejos, necessidades, próprios desta fase da vida.

A infância durante muito tempo foi concebida um período transitório, culturalmente criado, pelo qual a criança deveria passar o mais rapidamente possível uma vez que não valia a pena muito investimento. A infância era concebida como um período de pouca importância porque em nada colaborava para a mudança social. As crianças eram vistas como ingênuas, frágeis, incapazes e dependentes.

A concepção de infância que os adultos têm determina em grande medida o que escolhemos para as crianças. Segundo a Teoria Histórico-Cultural, as crianças deveriam todos os dias participar de atividades lúdicas, práticas e plásticas. Temos privilegiado isso? Pouco, com certeza. Por isso, pensar, planejar, prever ações que resultem em experiências de natureza plástica, prática e lúdica pode nos levar a possibilitar que elas se realizem. O planejamento de ações nesse sentido com e para crianças exige que tenhamos os materiais à mão, o ambiente propício e facilitador e adultos dispostos a se envolver na sua realização.

As crianças encontram grande satisfação e prazer nas brincadeiras que envolvem água, tintas, massas e melecas. Às vezes colocar na boca faz parte do reconhecimento desses materiais por tratar-se de crianças que estão descobrindo o mundo. Toda ação da criança em busca de experimentar a textura, a cor e o sabor são perfeitamente previsíveis e devem fazer parte da vivência da atividade. Por isso, planejar momentos de contato com materiais e oferecê-los ao ar livre, mediante o arranjo do ambiente, dos materiais é muito importante se acreditamos que a infância pode ser vivida intensamente quando adultos possibilitam as experiências. 


sexta-feira, 3 de março de 2017

Pensar, refletir, planejar: a transformação das ações cotidianas

Grande parte da infância das crianças pequenas nos atuais tempos é vivida em instituições de Educação Infantil. Este marco histórico data muito recente no Brasil, uma vez que paulatinamente às crianças pequenininhas deu-se o direito à vaga em função da etapa da Educação infantil fazer parte da Educação Básica (LDB/96). Vivenciar coletivamente as primeiras experiências junto a outras crianças têm sido um diferencial para as crianças pequenas, dantes educadas exclusivamente pelas famílias.

Famílias e Centros de Educação Infantil compartilham a educação das crianças e é nesta parceria que se percebe um entrelaçamento de valores, práticas e crenças que envolvem adultos e crianças no cotidiano.

As crianças pequenas, peculiarmente, as das turmas de Maternal, que beiram a chegada do terceiro aniversário durante o ano letivo, requerem o atendimento de necessidades fundamentais de sobrevivência, o que se denomina como alimentação, descanso, higiene.

A construção da autonomia e do controle da vontade pelas crianças nesse momento de suas vidas é um dos pilares a sustentar o enfrentamento, a vivência e o investimento desse cotidiano. A caracterização das vivências de atividades no âmbito coletivo, como as refeições, o uso do banheiro e a hora do descanso está atrelada aos costumes, aos valores e às concepções dos adultos que organizam esse cotidiano.

Um rápido olhar sobre as atividades desse cotidiano pode levar a pensar que sua organização é simples e não necessita de reflexão constante. Por outro lado, a reflexão apurada e complexa revela que no decorrer da passagem do tempo, crianças e adultos vão se modificando pelas interações e hora parece haver avanços e hora parece haver pequenos retrocessos no encaminhamento das ações. A constante retomada da orientação às crianças, seja no banheiro, seja no refeitório, seja na sala do descanso objetiva tornar mais corriqueiro e simplificado o comportamento da criança diante do que, no início do ano, se mostra bastante conturbado. Ao mesmo tempo que a criança avança em sua autonomia (por exemplo, retira sua roupa e senta para fazer xixi, lava as mãos e seca sem ajuda, escova os dentes, deita no colchão e começa a dormir, alimenta-se sozinha e é capaz de informar sua saciedade ou não, etc), ela também percebe novas possibilidades de fazer brincadeiras durante a vivência desses momentos, uma vez que ela não encara a sequência das atividades que “tem” de ser cumpridas da mesma forma que o adulto. Por isso, um enorme investimento de energia é solicitado ao adulto nesses momentos, o que acarreta a consciência por parte deste de que seu papel na Educação Infantil convoca sua grande disponibilidade em orientar a criança nos primeiros anos de vida nesses aspectos da sua humana condição.


A cultura, na qual todos estamos inseridos, dá-nos a maior parte das pistas do que desejamos para as crianças e nesse sentido trabalhamos o currículo da Educação Infantil, privilegiando e valorizando o trabalho com a criança pois dele depende tudo o que se apresentará a ela depois.


Sendo assim, não se trata de dispensar o planejamento desses momentos. Ao contrário, pelo planejamento, tornamos a “rotina” pedagógica, tanto quanto queremos tornar os demais momentos, tradicionalmente já considerados dessa natureza. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O que vejo quando observo uma criança?


Se por princípio nascemos todos diferentes, então devemos partir da premissa que cada criança aprende e se desenvolve de modo único. 

Como professora de bebês que estão com a idade de um a dois anos, reiteradamente dou-me conta que uma das tarefas mais difíceis é acompanhar individualmente de que modo cada um deles reage/responde/incorpora as experiências da educação coletiva. 


Sabemos que a educação infantil oportuniza a convivência entre coetâneos e crianças de outras idades e que a exposição diária ao compartilhamento de objetos, brinquedos, espaços, e da atenção dos adultos gera conflitos que devem ser administrados. A esta “administração” quero chamar de intervenção pedagógica, que por ser pensada, sistematizada e organizada intencionalmente, surte um tal efeito, hoje tema de inúmeras pesquisas na área da Educação Infantil. Esse efeito é a capacidade que uma criança constrói, desde muito pequena, de desenvolver sua inteligência e personalidade “se” ela encontrar as condições favoráveis na instituição que frequenta. 

A esta altura do ano, com a aproximação da construção do primeiro texto que se caracteriza como o que vai informar aos pais o acompanhamento do processo educativo das crianças durante o primeiro semestre, faz-se necessário que se reúnam elementos para proceder essa análise. Ao mesmo tempo que esse é um argumento importante, existe ainda um outro: a visibilidade e a invisibilidade das crianças em suas vivências cotidianas, ofuscadas muitas vezes pelos atropelos que nos exigem e tomam a atenção. 

Sinto necessidade de prestar atenção em cada criança em especial, por um dia inteiro ou pelo período que permanece conosco, fotografando-a e anotando o que ela fez naquele dia em que a coloquei em foco. Não tenho em mente que o dia de cada criança seja o melhor vivido e sim, que o dia em que ela estiver em foco, eu tenha concentração e discernimento de prestar-lhe atenção a ponto de fazer uma avaliação do que se apresenta. 

Parece-me um compromisso inalienável por parte do profissional da educação infantil que ele se debruce sobre essa tarefa como aquela que, no fundo no fundo, fala de sua própria capacidade de observar as crianças e de selecionar aquilo que as representa, bem como de redigir o texto que faça a síntese.   


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Um olhar sensível sobre o grupo de crianças: os adultos como parceiros desejáveis

A inserção da criança na Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, tem sido cada vez mais possível na maior parte dos municípios brasileiros. Estima-se que haja ainda muitas crianças a atender e se temos a crença de que a sua frequência é um diferencial na vida delas, isso complexifica nosso papel como profissionais dessa instância.

Quando as crianças nos chegam trazem já experiências e vivências diversas. Não nos cabe compará-las pensando que por terem nascido todas no mesmo ano, elas comportar-se-ão da mesma forma.

Ao observá-las bem de perto vemos reações muito ímpares mas todas um dia já registradas por estudiosos da área. Chorar muito e um pouquinho; gritar com todos os pulmões ou soluçar; colocar todo o pedaço de bolo na boca ou jogá-lo longe; comer como se fôssemos todos velhos conhecidos; bater em quem se aproxima ou aconchegar-se tristemente; deixar ser consolado ou empurrar quem está perto demais; morder ou beijar; ficar imóvel ou chorar no portão querendo saber por que a mãe a deixou aí; sentar e ouvir história, olhando, sorrindo ou se incomodando que as pernas do amigo estão encostadas nas suas; chorar porque, afinal, estão quase todos fazendo isso e se imitar é a lei da aprendizagem, então choramos juntos... Essas são algumas das reações das crianças recém-chegadas e ainda muitas semanas após o início dos trabalhos.


O que oferecer às crianças nos dois primeiros meses, reconhecidamente o período de familiarização com novos parceiros, adultos e crianças? Como proceder para abreviar o mal-estar pela separação dos pais, esses adultos amados e de confiança?

É preciso lembrar que cada criança percorre um processo individual de familiarização com o novo ambiente e o que funciona para uns, não repercute para outros.

Em minha prática, no primeiro mês em que novas crianças vem compondo a turma até chegar ao número dezesseis por período, percebi que os bebês têm necessidades, a maioria determinada pela condição cronológica. As seis crianças que têm menos de um ano e quatro meses requerem cuidados na condução pelos espaços do Centro e demonstram sua insegurança pelo novo ambiente através da expressão de estarem perdidos quando nos dirigimos ao parque, ao refeitório, ao solário. Dentre eles, porém, notamos uma criança que está demonstrando bom manejo da colher e do copo. Os demais precisam ser alimentados e estão começando a conhecer o uso social do talher, do prato e do copo.


Das nove crianças de um ano e quatro meses até os que completaram um ano e meio, apenas um se alimenta sozinho e bebe do copo com habilidade. Os demais também precisam ser alimentados, ainda que estejam iniciando o processo de levar à boca o alimento com a colher. Esse pequeno grupo está necessitando de mais tempo para se familiarizar com as atividades que ocorrem em outros espaços pois manifestam muitos momentos de desconforto, expressando-se pelo choro. Das cinco crianças que estão acima de um ano e meio, apenas uma está ainda bastante insegura no ambiente, chorando quando novos adultos frequentam a sala.

Interessante registrar que as destrezas motoras não estão explicadas pelo desenvolvimento físico. Entre uma das crianças que é do mês de dezembro e outra que nasceu em junho, existe uma enorme diferença. A primeira, mais jovem, faz e acontece; a outra, de junho, não consegue erguer a perna para subir no cavalinho. São as experiências e vivências diversas que essas crianças tiveram.

Dada essa enunciação da diversidade entre as crianças, uma pequena amostra apenas para justificar as escolhas que deverão ser feitas, podemos pensar no que temos oferecido até agora a elas e o que precisamos oferecer, uma vez que o objetivo da Educação Infantil é ampliar as experiências das crianças.

Organizar um espaço, que não seja uma sala desnuda, com objetos como livros, brinquedos, móveis foi o início. Mas, passado um mês de convívio com algumas crianças, percebe-se a necessidade de apresentar outros desafios.

Deixar as crianças interagir com o que já está exposto é uma atitude frequente. Mas é preciso levar novos objetos e brinquedos para que elas possam conhecer e criar brincadeiras. Por isso, será necessário continuar providenciando pelo menos:

 A organização de um espaço para que as crianças se sintam desafiadas a descobrir os efeitos de manipulação.


- O oferecimento de objetos e brinquedos que agucem a curiosidade.
- O acompanhamento das crianças nas brincadeiras, conversando, instigando-as oralmente.
- O respeito pela individualidade das crianças, aconchegando-as nos momentos em que demonstrarem desconforto emocional.
- O desenvolvimento da paixão pelos livros, contando histórias e descrevendo as imagens com detalhes, assim como na ampliação do vocabulário das crianças, investindo nos diálogos constantemente e no canto de músicas infantis.
- A estimulação para a manipulação de texturas, como tintas comestíveis, para ampliar a sensação tátil, uma vez que o corpo é um poço de possibilidades de aprendizagem.

O trabalho do profissional da Educação Infantil não pode ser solitário. Há de se planejar coletivamente as ações. Mas esse é um dos capítulos mais difíceis da história. Não sei porque estamos demorando tanto para levar a sério que juntos conseguiremos avançar mais do que em solidão. Talvez tenhamos que esperar um decreto governamental. Lamentável!



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Penso, logo planejo

Ainda em férias...
Vou à sacada e observo o mundo, o de dentro e o de fora de mim.
O sol dá ao dia uma luminosidade renovada. Deve ter feito mil promessas na noite de ano novo.
As árvores, os arbustos, as flores me dão a impressão de muito vivos e dispostos.
E eu, como estou?
Quando olho a mim mesma, o que percebo?
O que me dou neste dia e nos demais do ano que me farão brilhar, sorrir, encantar e seguir confiante?
Estou contando os feriados no calendário?
Planejo meus finais de semana ainda na estação do verão?
Penso em como economizar minhas energias e "aguentar" a árdua tarefa de ser professora?
Que pensamentos povoam meu cotidiano antes do recomeço do ano letivo?
Aproveito até o último minuto e faço de conta que não vai mexer comigo encontrar as crianças?
Adio as expectativas em relação ao meu novo grupo, afinal, devo respeitar meus últimos dias de férias?

Penso em outros profissionais e imagino que eles estão mais tranquilos do que eu e se saem melhor nos níveis de ansiedade diante da desafiante tarefa de se responsabilizar por crianças tão pequenas?
Por que estou lendo uma tese sobre documentação pedagógica?
O que pretendo privilegiar em 2016 que me dará satisfação e motivos para ir ao encontro de meu grupo de crianças?



Quais são minhas intenções ao me ater ao pensamento de que o que faço tem uma importância crucial na formação humana de meu novo grupo de crianças?


O que farei com o que faço todo dia com elas?


Como vou qualificar minha atuação e tornar o cotidiano mágico e interessante para as crianças e as demais adultas que trabalharão comigo?
Como gostaria que fossem documentados nossos encontros para que não se caracterizem apenas como uma tarefa exaustiva e sim transbordante de significado?

É que eu não sei não sonhar. O sonho é sobre o medo também, porque pensar sobre tudo dá muito medo. Quem tem medo se pega a pensar.

"Tudo que não invento é falso. Meu medo é inventado. Pode haver mais medo de fracassar do que as chances de errar que imaginamos?" (SIMIANO, 2015, p. 38). 

E nessa leitura*, que faço hoje, acho muitas respostas e consolo meu medo. Meu medo é meu respeito. Meu respeito é pelas crianças e pela minha profissão. Sigo lendo, garimpando ideias e novos olhares sobre antigas questões. O tesouro será construído aos poucos. Na reflexão e na renovação. Comecemos acreditando.

* Tese de Doutorado de Luciane Pandini Simiano: "Colecionando pequenos encantamentos... a documentação pedagógica como uma narrativa peculiar para e com as crianças bem pequenas", Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientadora: Profª. Dra Maria Carmen Silveira Barbosa. 2015.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eu desenho, tu desenhas. Mas eles não gostam.

Sou dessa geração tolhida de criatividade porque na infância tudo era quase proibido.
Não tocar, não mexer, não tentar... esperar até poder.
Tudo bem que agora tenha que fazer um enorme exercício como professora de bebês para não repetir e impingir meu próprio destino a eles. Mas... mães do século XXI, achei, já tinham superado essa mentalidade. Que nada!

Uma menina de dois anos risca os braços e é colocada a pensar sobre sua ação. Talvez ela tivesse alguns motivos pelos quais escolheu o próprio corpo como ideal para desenhar.

Mas tudo é uma questão de perspectiva.

Outra criança vem com os braços riscados de caneta e o pai pede desculpas na porta para a professora, como se quisesse dizer "Releve, ele só tem dois anos. É coisa da idade". Quem levaria a sério e pensaria que ele se tornará um arruaceiro?

Então eu vi, na contracapa de uma obra de literatura infantil o que escreveu a ilustradora sobre algo acontecido na infância. Conta ela que um dia foi ao seu quarto e desenhou na parede um sol enorme e grandes montanhas. A mãe, ao ver a "obra", não brigou. E a narradora finaliza: "E eu me tornei ilustradora".

São três momentos distintos com os quais tive contato e que me remetem à uma reflexão que não quer calar:
O que pensamos para as crianças?
O que vemos através de suas tentativas?
Que ordenamento é esse que não respeita a criação da criança?
Por que o mundo tem de ser tão pertencente ao adulto?
Por que logo escolhemos a lógica adultocêntrica e optamos sempre por nossas "ilustrações" como as únicas válidas?
Por que as crianças não devem fazer marcas em seu tempo?
Por que ainda o mundo não é um lugar democrático onde crianças e adultos convivem e se respeitam?

sábado, 8 de agosto de 2015

O que são "experiências com"?

Num dos vídeos exibidos na TV Escola, lançado após a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2010), a profª. Drª. Zilma de Oliveira explica o termo "Experiências com" que compõe o Currículo dessa etapa da Educação Básica. Esse termo "Experiências com" requer que reflitamos mais sobre o que temos proposto às crianças de 0 a 5 anos. 

A profª. Drª. Suely Amaral Mello afirma que as crianças estão explorando o mundo o tempo todo enquanto nós, professores/as, estamos "quebrando a cabeça" na tentativa de achar o que oferecer a elas.

O conhecimento sistematizado, aquilo que compõe o patrimônio da humanidade ao longo da história dos homens sobre a terra, (por exemplo, o algarismo 2 vem após o 1 no sistema decimal, nosso alfabeto tem 26 letras e sua sequência é a, b, c etc.) não deveria ser uma preocupação do/a professor/a da Educação Infantil. Contudo, o entendimento dessa ideia "Experiências com" é muito difícil para muitos de nós. Continuamos emprestando o Currículo do Ensino Fundamental e deixando de explorar aquilo que as crianças deveriam conhecer primeiro: o mundo como ele se apresenta. Os adultos são os responsáveis por organizar aquilo que as crianças não conseguem buscar pela sua condição.

Nessa tentativa de oferecer às minhas crianças uma pequena parcela de novas "experiências com", sistematizei um planejamento que, por estar organizado da maneira como está, permite que eu faça registros sobre suas reações e possa ser uma professora pesquisadora enquanto desenvolvo minha prática pedagógica. São os protagonistas da Educação Infantil em ação: eu, a me observar e retomar, caso não fique satisfeita com os resultados de minha ação, e, as crianças, a quem dirijo meu olhar atento para perceber reações, aprendizagem, desenvolvimento. 

Eis a que me proponho:  


Agosto de 2015

PLANEJAMENTO DE COM... para conhecer mais sobre como crianças aprendem e se desenvolvem


Escrever com giz de quadro em TNT colado sobre a mesa.
Escrever com carvão em papel craf e folhas brancas.
Escrever com canetões em caixas.
Desenhar com pincel e guache em papelão afixado na cerca.
Desenhar com pincel na parede de azulejo.
Pendurar roupas com grampo de madeira em corda de varal.
Pendurar figuras recortadas de revista no varal com grampos de roupa.
Colar figuras recortadas de revista em papel craft.

Objetivo Geral:
  • Proporcionar às crianças experiências de contato com objetos novos, suportes e instrumentos de escrita para que possam sentir esses materiais em suas diferentes texturas, bem como oportunizar momentos de expressão das diferentes linguagens (oral, escrita, plástica, gráfica, matemática, corporal, musical,...) presentes na cultura humana historicamente acumulada.

  • Observar e registrar o maior número de reações das crianças através de fotos, vídeos e registro escrito.

Objetivos específicos:
  • Expressar sensações e sentimentos proporcionados pelas experiências e pelos materiais disponibilizados.
  • Falar, agir, gesticular, rir, cantar e outras manifestações possíveis durante as experiências.


JUSTIFICATIVA:
As crianças com o passar do tempo de convívio conosco revelam a importância que damos a elas, aos eventos, às atividades do cotidiano e àquelas que privilegiamos e que trazem a nossa marca.
Alguns desses aspectos creio ter alcançado plenamente: as crianças já perceberam que eu gosto de cada uma em especial e me dirijo a elas com respeito e carinho. Que os livros e as histórias são presença constante em nosso convívio. Que a comunicação por conversas, explicações, músicas e movimentos também são atividades presentes. Que suas necessidades de comer, beber água, serem asseadas e confortadas nos momentos de choro são importantes para mim.

Mas está na hora da turma ser desafiada com novas vivências. Por isso, o elenco das “experiências com” são imprescindíveis nesse momento. Uma das justificativas que dou para proporcionar novas experiências com materiais de produção artística é a desvalorização que a expressão pela arte vem tendo nos níveis subsequentes à Educação Infantil. Outras linguagens são muito mais valorizadas e privilegiadas. Falamos tanto em vidas com qualidade, voltar ao simples, ser criativo, solidário com os problemas da humanidade. Para que tenhamos uma geração mais sensível é preciso começar logo, uma vez que elas levarão parte daquilo que fomos.


AÇÕES
(Não escreverei mais “pedagógicas” porque minha função como professora não é outra senão nesse sentido. Uma ação planejada, sistematizada e registrada não é outra coisa que de cunho pedagógico se feita por uma professora. E não tem a ver com exitosa ou fracassada. Para isso invocamos um quarto elemento: a observação reflexiva).

ESCREVER COM GIZ DE QUADRO EM TNT COLADO SOBRE A MESA: Colocar à disposição das crianças giz de cera, tnt preto afixado na mesa da sala para que façam suas produções.

ESCREVER COM CARVÃO EM PAPEL CRAF E FOLHAS BRANCAS: Fixar papel craft no muro do solário e oferecer carvão para as crianças fazerem suas produções.

ESCREVER COM CANETÕES EM CAIXAS: espalhar caixas de papelão e canetões no solário para que as crianças possam desenhar em seu interior e no lado externo.

DESENHAR COM PINCEL E GUACHE EM PAPELÃO AFIXADO NA CERCA. DESENHAR COM PINCEL NA PAREDE DE AZULEJO: Fazer desenho com tinta guache em azulejo, papel craft. (Quero fazer um parênteses a respeito. Tenho como objetivo proporcionar a elas a oportunidade de utilizar tinta guache. Seja com pincel, seja com as mãos, seja pintando em azulejo ou papel craft. A organização desse momento exige que tenhamos sol, camisetas para cobrir as roupas, tempo não frio, baldes e panos para lavar as mãos, local preparado para a ação das crianças e uma pessoa que possa nos auxiliar em caso de urgência. Essas condições não ideais faz com que eu tenha desistido até agora da empreitada. Aliás, deveria ser corriqueiro que as crianças pudessem ter contato com esses materiais. Dito isso, vou me encorajar).

PENDURAR ROUPAS COM GRAMPO DE MADEIRA EM CORDA DE VARAL. PENDURAR FIGURAS RECORTADAS DE REVISTA NO VARAL COM GRAMPOS DE ROUPA: estender corda de varal na sala. Oferecer grampos de roupa de madeira para que as crianças pendurem pequenos tecidos. O mesmo com folhas brancas que acabaram de desenhar e também figuras recortadas de revista. Esta brincadeira poderá acontecer no solário e na sala.

COLAR FIGURAS RECORTADAS DE REVISTA EM PAPEL CRAFT AFIXADO NA PAREDE DO SOLÁRIO: As crianças têm muita curiosidade em mexer com cola e imitar nossa ação de colar coisas. Elas já observaram inúmeras vezes essa ação nas professoras e outros adultos. Creio que gostariam de experimentar essa atividade.

Perguntas que me farei:
  • Quem manifestou interesse nas atividades?
  • Como as crianças reagiram aos materiais?
  • Que elementos novos foram observados no comportamento deles durante as atividades?
  • Quais crianças mais se identificaram e com qual atividade?
  • Como reagiram no começo e no término da atividade?
  • Quais as dificuldades dos adultos durante a proposição das atividades?
  • Quais atividades causaram mais entusiasmo e quais menos?
  • Que momentos inusitados podem ser destacados?
  • Como transcorreu o tempo utilizado para a atividade? Faltou, foi tumultuado, em demasia?
  • Que destaques podem ser registrados sobre as experiências com?
O planejamento termina aqui. Mas o processo de aprendizagem docente mal começou. Uma última questão: é possível que os profissionais da Educação Infantil continuem pensando que ler e escrever não é parte da profissão? 






domingo, 5 de julho de 2015

NADA DE NOVO

A vida de educadora me causa muito prazer e também muita angústia.
Observo-me no meio das crianças e vejo uma professora atormentada pelas condições da atual Educação Infantil brasileira. 
Sou responsável por tudo o que acontece a dezesseis crianças. Tanto as conquistas quanto as pendências. 
Esta semana foi entrega das avaliações do semestre de meu grupo. 
Grupo que efetivamente faz um mês que está comigo. 
Por isso acompanhei a professora que estava até então com ele. 
À medida que as conquistas das crianças foram sendo abordadas pela professora e respaldadas por pais e mães, fui percebendo como é difícil ter presente como estava e como está a criança, uma vez que o escrito nem sempre retrata os detalhes.
Fiquei imaginando se estou prestando atenção nas minúcias: das brincadeiras, na expressão das vontades e contrariedades, na necessidade de contato visual e físico, na descoberta do mundo, nas experiências novas, nas quedas e empurrões, nos choros e sorrisos, na relação entre os pares, enfim a tudo aquilo que demandam dezesseis crianças, das quais metade fez dois anos em junho e outra metade fará agora em julho.
Senti-me um tanto quanto impotente e incapaz de registrar tantas informações para seguir fazendo valer a educação que almejo. 
Senti-me amedrontada ao pensar que estou sendo inconsistente nas orientações que faço às crianças. Acho que são muitas crianças ao mesmo tempo clamando minha intervenção. 
Trata-se da consciência da responsabilidade.
A Teoria Histórico-Cultural ajuda-nos a pensar sobre essa capacidade que desenvolvemos durante a nossa vida de tornarmo-nos conscientes.
Conscientes sempre em relação a alguma coisa. 
A consciência humana é uma característica útil para qualquer pessoa, porém, aos educadores serve sobremaneira. 
E é por essa consciência que reclamo hoje aqui: estou me sentindo incapaz de desenvolver uma prática pedagógica a contento por estar responsável por dezesseis crianças ao mesmo tempo, porque uma lei foi mal elaborada e sacrifica grandes e pequenos. 
Poderia me calar e achar o máximo dos feitos dar conta da educação de todas elas. E vamos dando, para todos os efeitos. Mas a custa de quê?
Várias implicações depreendem-se da situação: exaustão do professor, relação pouco individualizada em consonância com as necessidades da criança tão pequena, dificuldade de observar e aludir aos desafios que a idade exige, qualidade prejudicada no atendimento aos desejos e necessidades da criança,  
Alguém vai dizer: mas você não está só. Tem uma parceria com outra profissional. Sim, geralmente isso aliviaria a situação. Porém, o fato de as dezesseis crianças dividirem o mesmo espaço, acaba por vincular uma educadora a todas na maioria das horas do dia. As pessoas que vivem essa realidade concordarão com essa explicação.  
A professora Suely Amaral Mello, em sua palestra (Indaial, abril/2015), defende que uma criança necessita de uma referência forte no adulto, de onde emana a confiança e a segurança para poder conhecer o mundo e explorá-lo com tranquilidade e que isso ocorre se houver nessa faixa etária um número razoável de crianças por educador. 
Estou insatisfeita com meu desempenho, mas talvez esse ônus não seja apenas meu. 
    



domingo, 3 de maio de 2015

As intermitências da prática pedagógica na Educação Infantil: o que temos privilegiado?

O cotidiano vivido na Educação Infantil é composto de detalhes. Por isso, muitas vezes, não nos damos conta de como as pequenas coisas e os pequenos gestos dão grandes resultados. Os profissionais que têm se interessado em ler sobre os novos rumos teórico-práticos propostos pela Teoria Histórico-Cultural conseguem visualizar uma mudança de paradigma e aí, convenhamos, de detalhe em detalhe, mudam-se práticas pedagógicas antes tão demarcadas por orientações biologistas.

Quando nos propomos a observar bem de perto o que acontece nos espaços de Educação Infantil, deduzimos que queremos fazer a educação da criança pequena com pouco, ou melhor, com muito pouco que diz respeito diretamente à sua curiosidade e ao que ela necessita. 

Percebo uma grande resistência por parte dos profissionais da Educação Infantil em aceitar que as crianças estão constituindo sua humanidade, nos seus primeiros passos, o berçário e não se extinguindo, é claro, até o final da etapa da Educação Infantil. Noto que há um desconhecimento do que se poderia inovar e se repetem costumes e ações que em muito já deveriam estar superados. 

O problema é que ninguém supera uma fase sem adentrar em uma nova. E para adentrar é preciso ler e ler e ler. 

Ao ter a oportunidade de me afastar um pouco, o suficiente para fazer uma análise do que se oferece hoje às crianças desse município, chego à conclusão de que preciso concordar com a professora Suely Amaral Mello, quando afirma que a educação da criança de 4 e 5 anos tem se espelhado no Ensino Fundamental e a educação da criança de 0 a 3 anos na da educação das de 4 e 5 anos. Então, de fato, não teremos uma especificidade mesmo. Teremos uma projeção equivocada, encerrada nos vícios da escolarização precoce e na inobservação de quem são as crianças em fase pré-escolar, não importa se elas tem seis meses ou cinco anos completos. 

A incumbência ensejada pela Teoria Histórico-Cultural deveria fazer-nos pensar mais na criança. Mas... nesta época do ano pensamos em dias das mães. Um grande esforço para impressionar as adultas, "mães" das nossas crianças, enquanto esse dispêndio de esforços poderia trazer novidades para as crianças de nossos Centros, o que certamente seria esperado que fizéssemos por elas. Oxalá isso fosse mostrado também às dedicadas mães, que, por certo, querem, sobretudo, o melhor para seus descendentes.

No sábado, caminhando pelas ruas da cidade, por duas vezes vi mulheres indígenas sentadas na calçada e em frente a elas uma pequena exposição da arte desse povo. Fiquei pensando que não temos em nossos Centros muitos desses objetos confeccionados expostos em nossas salas e poucas vezes vemos músicas, danças, tradições que o lembrem. Senti-me frustrada de certa forma, por não ter os objetos (onças, gato do mato, colares, instrumentos) para levar, mostrar e manusear com as crianças. Essa indignação, em parte, foi-me possibilitada pela Escola de Vigotsky que convoca os profissionais da Educação Infantil a apresentar o mundo às crianças pequenas, no que ele tem de mais inusitado e humano.

O que vemos em abundância são peças de encaixe, de todos os tamanhos e cores, brinquedos de borracha e plástico. Isso não é suficiente, é preciso dizer. Faltam-nos os objetos reais da cultura: máquina fotográfica, notebooks, gravador, carrinhos de madeira, livros, suportes diversos de escrita, areia, barro, água, plantas, tintas naturais, instrumentos musicais, rede de dormir, pedras de tamanhos diversos, flores, utensílios de cozinha, etc. 

O leitor pode pensar que deu-se aqui  uma miscelânea de coisas, um tanto quanto confusas. Pode ser, mas, a docência na Educação Infantil numa nova perspectiva que privilegia ambos os protagonistas (adultos e crianças), está em construção, como já afirmei, e sua específica ação pode começar confusa. Se deixarmos, as crianças vão nos ajudar nessa tarefa de decidir. Devíamos ouvir mais os seus desejos, observar mais as suas culturas infantis. E então, entre gatos do mato e foto das mamães estampadas nos corredores dos Centros, podíamos indagar o que a elas concerne. Quem sabe ambos, se soubermos propor. 

domingo, 19 de abril de 2015

Planejamento e docência na educação infantil: um retrato que deve ser colorido

Ontem deixei-me afetar pela fala de um professor que aludia à necessidade de estudar, pesquisar e ler incansavelmente se quisermos ficar sabendo sobre o Continente Africano, como local geográfico que remonta a história de todos nós. Dizia ele que se encontrava há vinte e cinco anos nesse processo e ainda era precária sua formação para falar aos estudantes sobre o assunto.

Fiquei pensando na história da educação da criança de 0 a 5 anos no Brasil e senti-me mais confortável, uma vez que ela é muito recente. Apesar da contemporaneidade dos estudos sobre a educação infantil como primeira etapa da Educação Básica (leia-se LDB/96), não podemos nos alijar da responsabilidade como co-produtores dessa história, ignorando a urgência de nos colocarmos como os maiores interessados nos estudos sobre as transformações históricas da concepção de criança/infância. Para quem não atenta a esse detalhe, é a partir dessa concepção que delineamos nossa prática.

A afirmação acima tem por base minha própria história no magistério. As concepções que me conduziram nesses anos todos determinaram minhas escolhas para as crianças, mas eu não sabia. Somente quando fui tocada pela Teoria Histórico-Cultural passei a refletir sobre como minha concepção de criança influenciava minha prática.

Há profissionais que acreditam que mudar de ideia sobre algo é motivo de constrangimento. Não é, não. Grandes pensadores, no decorrer de sua vida dedicada a pesquisas em busca de teorias, foram capazes de dizer que mudaram de ideia. Um deles foi Sigmund Freud.

Nesse sentido, quero refletir sobre um texto que nos encaminha (mais um) a tomar em nossas mãos a responsabilidade sobre o que oferecemos às crianças cotidianamente. É o texto de Maria Cecília Braz Ribeiro de Souza e Luíza Franco Duarte*, intitulado "Do improviso à intencionalidade na educação infantil: debate de concepções".

O texto convida a parar para analisar quais são nossas intenções ao escolher as atividades e os materiais com que se desenvolverá nossa prática pedagógica. Enseja que a Teoria Histórico-Cultural pode contribuir de modo esclarecedor em relação ao que desejamos para a infância, através da compreensão do que é uma educação que objetiva a humanização das novas gerações. As intenções que subjazem às nossas escolhas revelam como oportunizamos as vivências no ambiente, o encontro entre as crianças e as linguagens que suscitam quando crianças e adultos convivem num ambiente pleno de possibilidades de expressão nas diferentes linguagens.

As autoras citam Mello (2006, p. 199) para destacar três pontos fundamentais que justifica a adoção da Teoria Histórico-Cultural a embasar práticas pedagógicas com intencionalidade:
- educação como um processo de humanização;
- desenvolvimento como produto do acesso social e intencionalmente organizado à cultura;
- papel do educador como essencial e sempre colaborativo.

Como cada um desses aspectos organiza nossas escolhas para o trabalho com as crianças?

As crianças, em primeiro lugar, contam com a certeza de que os profissionais da educação, geração de adultos que possui formação em Pedagogia, que tem o hábito de se atualizar por isso lê e se aperfeiçoa constantemente e que têm como ferramenta de trabalho a reflexão sobre suas práticas, estejam aptos a "cuidar" para que chegue a elas o melhor da cultura produzida pela humanidade. Esses educadores entendem que a educação infantil é um processo de humanização.

Em segundo lugar, que tenham compreendido que o ofício docente exige que se planifiquem sistematicamente as ações que serão realizadas junto às crianças. Quero ressaltar que não se trata de elaborar um plano de trabalho que exclui a participação das crianças na tomada das decisões ou para excluir pelo quê elas estão curiosas e mobilizadas. Contar com a participação das crianças é um dos passos que se prevê no planejamento. As crianças, quando compreendidas em sua forma própria de produzir saberes e cultura, são reconhecidas como protagonistas nas escolhas do que irão aprender.

Em terceiro lugar, que os profissionais levem em consideração que o planejamento das práticas pedagógicas, que incluem o encontro de crianças de várias idades, caracterizem-se como ações muitas das quais pensadas no coletivo do grupo de adultos.

E finalmente, e não menos importante, que os profissionais tenham a perspicácia de notar quais conhecimentos do patrimônio cultural da humanidade, seja tecnológico, ambiental, científico, artístico, será importante trabalhar com as crianças.

O texto de Souza e Duarte é fundante para compreender como as ações educativas exigem intencionalidade pedagógica. Aliás, o trabalho que se pauta nos conhecimentos do senso comum (importantíssimo para levar a cabo o processo de humanização também) não é suficiente para nortear nossas práticas docentes. O que me leva à afirmação não foi senão o contato com a Teoria Histórico-Cultural. Antes tarde do que nunca.  



* Membros do grupo de estudos MEDIAR - Grupo de estudos e pesquisas em práticas educativas, de Foz do Iguaçu, Paraná.   

terça-feira, 14 de abril de 2015

Leitura de mundo: leitura da palavra

No ano de 2005, Ana Lúcia Goulart de Faria e Suely Amaral Mello organizaram uma pequena obra (pequena em tamanho, grande em importância) sob o título "O mundo da escrita no universo da pequena infância" e na qual encontra-se o texto "Letramento e Alfabetização - implicações para a educação infantil" de Luiz Percival Leme Britto. Apesar de dez anos passados da data da publicação, o texto de Britto está absurdamente à frente da concepção com que nós, profissionais da educação infantil, concebemos o processo de inserção à linguagem escrita das crianças. 

Britto se indaga no texto se a atualização e a incorporação dos novos conceitos de letramento e alfabetização nas práticas pedagógicas implicaram modificações no dilema que enfrenta a educação infantil sobre apresentar ou não formalmente/intencionalmente o código escrito. O autor discorre sobre as origens de ambos os termos - alfabetização e letramento - e cita uma das máximas de Paulo Freire (1982). Esse educador "[...] insistia que a leitura de mundo precede a leitura das palavras, sugerindo com isso que a aprendizagem da escrita só faria sentido se vivenciada pelo sujeito e se tivesse significado para ele" (apud Britto, 2005, p.8). Ainda nessa linha de discussão e reflexão sobre como temos nos relacionado com nosso próprio processo de alfabetização, acrescenta: "a aprendizagem da leitura e da escrita não se resume à aprendizagem do manuseio do código" (idem).

Para Britto, seguindo o pensamento de Soares, o termo alfabetização parece estar fortemente vinculado à aprendizagem das primeiras letras, fazendo alguns autores buscarem uma conceituação que expressasse a diferença entre esse processo e as formas de inserção no mundo da cultura (p. 9). Brito dá ênfase à definição de Soares (1998, p. 18):

Letramento é, pois, o resultado da ação de ensinar e 
aprender a ler e escrever: o estado ou a condição 
que adquire um grupo social ou um indivíduo como
consequência de ter-se apropriado da escrita [...]. 
Já alfabetizado nomeia aquele que apenas aprendeu
 a ler e escrever, não aquele que adquiriu o estado 
ou a condição de quem se apropriou da escrita, 
incorporando as práticas sociais que as demandam".  

A essa altura, Britto nos convida a refletir quais implicações tem o debate sobre letramento e alfabetização para a educação infantil. Sua perplexidade em relação ao assunto se concentra na questão do debate em torno da preocupação de alfabetização em seu sentido mais restrito, "limitado ao desenvolvimento do conhecimento do código, numa dinâmica que em nada contribui para o desenvolvimento de uma educação crítica e solidária". Britto escreve claramente sobre seu assombro diante da situação a que estão expostas milhares de crianças:

"O grande desafio da educação infantil está exatamente
em, em vez de se preocupar em ensinar as letras, numa 
perspectiva redutora de alfabetização (ou de letramento), 
construir as bases para que as crianças possam 
participar criticamente da cultura escrita, 
conviver com essa organização do discurso
 escrito e experimentar de diferentes formas os
 modos de pensar escrito".   

Antecipar o ensino das letras sem trazer o debate da cultura escrita para o cotidiano é desrespeitar o tempo da infância e invocar uma educação tecnicista, argumenta Britto. A falta do hábito de questionar as práticas cotidianas na educação formal já justificou inúmeros equívocos percebidos ao longo da história. Somos, na maioria, frutos de uma educação que não aprendeu a debater as questões de interesse coletivo, mesmo diante de evidentes sinalizações de que essa educação silenciou vozes e corpos. 

O difícil desafio está em compreender, conforme Britto, como profissionais da educação infantil que não se furtam à reflexão, a inserção da criança no mundo da escrita para além de alfabetizá-la. É inseri-la em um universo cultural complexo em que a escrita se apresenta como mediadora de valores e formas de conhecimento (p. 17). Nesse processo, o letramento ou alfabetização se inicia bem antes da entrada da criança no ensino fundamental e não se encerra com o término da escolaridade. Assim, o contato com a linguagem escrita se concretizará se pudermos compreender que viver nesse mundo é dominar os discursos da escrita, ter condições de operar os modos de pensar e produzir a cultura escrita, lendo o mundo e lendo a palavra.

Desejo que em nós, adultos, se inicie o quanto antes esse mesmo processo: o de compreender como devemos mediar o contato da criança com a linguagem escrita, sem reduzi-lo a treino de letras, sílabas e palavras que a criança memoriza sem significado para ela. 


domingo, 12 de abril de 2015

A atividade lúdica e o desenvolvimento infantil: imaginação, para que te quero?

Certa vez alguém me pediu que eu lhe explicasse o que eu entendia sobre lúdico. Ora... as minhas explicações na época em nada se assemelham ao que diria hoje sobre essa palavra. 

Temos, como pedagogos, poucas oportunidades de nos aprofundar no tema na Formação Inicial e tampouco as garantiremos na Formação Continuada (leia-se Em Serviço). No entanto, deveríamos nos informar e refletir mais sobre. Mas por que a discussão deveria nos interessar? O que o lúdico tem a ver com a educação de crianças de 0 a 5 anos? Por que a mesma pessoa que me fez a pergunta há algum tempo, contou-me há poucos dias que seu filho de cinco anos foi descrito pela professora como "viajão", quer dizer, distraído, fantasioso, pouco centrado, sonhador? Parece-me preocupante que esse tipo de descrição continue ocorrendo da parte dos/as profissionais da Educação Infantil. Na verdade, as crianças estão perdendo enquanto não soubermos mais do que o senso comum sobre o que é o lúdico e que as crianças, como grupo geracional específico, vivem uma etapa chamada infância, que, convenhamos, tem movimentado a academia de forma significativa em busca de novos horizontes. 

Para a maioria de nós a palavra "lúdico" está associada  à diversão, brincadeira, fantasia, faz de conta, alegria. E pode ser mesmo isso. Mas só essas noções são vagas para pedagogos/as.

Na pré-escola, a atividade lúdica é a principal para a criança. E a atividade principal da criança é a brincadeira. Se a brincadeira invoca a imaginação, podemos depreender que a brincadeira é, em sua essência, lúdica. O problema em discutirmos o que é lúdico, qual o papel da brincadeira é que pouco sabemos sobre a brincadeira como categoria que concerne a nós, pedagogos, assim como o cálculo concerne ao matemático.

A atividade lúdica é humana e não está definida a priori: ela depende de condições concretas para se desenvolver. Para Rocha (1994), a caracterização da atividade lúdica é complexa, pelo fato de que, como outras atividades humanas, ela reflete em sua estrutura de funcionamento uma relação dialética entre o já dado e o inovador, entre o imaginado e o conhecido; nem pura fantasia (no sentido ausência/negação da realidade ) nem pura realidade transposta. A esfera lúdica permite a convivência de diversas contradições (p.62).  

Vigotski, Leontiev e Elkonin advertem que a atividade lúdica consiste na elaboração de formas especificamente humanas de representar, significar e conhecer o mundo que possibilita a criança constituir-se como sujeito, sem deixar de levar em consideração os fatores condicionantes da cultura ou das condições concretas de vida que modulam o desenvolvimento dos sujeitos. Sobretudo, esses autores enfatizam que a atividade lúdica não é natural e universal no homem. Ela dependente do contexto histórico-cultural em que este está inserido.

Vigotski e colaboradores negaram a tendência inata do brincar na criança, sobretudo o brincar como resultado de fatores maturacionais. Eles afirmam que a capacidade para brincar é resultado das relações sociais e das condições concretas de vida e, a partir delas, a criança emerge como sujeito lúdico.

Nas sociedades em que se deu mais fortemente o desenvolvimento das forças produtivas, da complexificação dos instrumentos e o surgimento de novas formas de divisão do trabalho, as crianças foram, gradativamente, sendo retiradas da esfera da vida adulta, agora mais complexa e exigindo novas responsabilidades. Essas condições histórico-culturais deram origem ao jogo de papéis. Os instrumentos de trabalho no contexto dessa sociedade perderam sua função originária, conservando apenas a semelhança externa com os instrumentos de trabalho utilizados pelos adultos. Foi esse cenário que deu origem aos brinquedos, através dos quais as crianças reproduzem, na esfera social, a vida adulta da qual ainda não participam mas desejam participar.

É exatamente no desejo de participar das atividades do mundo adulto que se desenvolve a brincadeira do jogo de papéis. O que a criança faz na brincadeira é tomado daquilo que ela observa as pessoas a sua volta fazerem concretamente. A criança representa no jogo o que há de típico na realidade concreta nos papéis conhecidos, como, por exemplo, o que há de típico em ser "mãe", ser "professora", ser "bombeiro".

De que forma a atividade da criança se caracteriza como lúdica (isto é, se emancipa da realidade)? É através da imaginação. A imaginação (processo psicológico especificamente humano) se origina da atividade lúdica. É a capacidade da criança em lidar com o mundo, atribuindo-lhe novos significados, além dos socialmente estabelecidos. É no jogo de papéis que o real e o imaginário se relacionam dialeticamente. O impulso criativo é aquele que permite á criança reordenar os elementos extraídos da realidade em novas combinações.

Portanto, à criança com "ar de sonhadora", que parece imersa em um "mundo à parte", o real e o imaginário estão implicados e os limites entre ambos são altamente permeáveis. A imaginação não é condição para que ela possa brincar. Na verdade, quanto mais ações lúdicas a criança puder desenvolver, mais o imaginário se compõe.
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Enquanto não compreendermos o papel da brincadeira, das interações sociais e da vivência de experiências diversificadas com a cultura historicamente acumulada para o desenvolvimento da personalidade e da inteligência, continuaremos defendendo a socialização da criança como um processo em que elas devem sofrer as ações dos adultos ao invés de participarem ativamente de seu próprio processo de humanização.  



quinta-feira, 9 de abril de 2015

A menina que aprendeu o segredo da porta

Estava sentada nas cadeiras de uma instituição bancária esperando a minha vez de ser atendida. Próximo de mim encontravam-se um homem, uma mulher e uma menina (de uns três anos, mais ou menos). Acompanhei-os com o olhar ao saírem pela porta giratória e ouvi um riso (dos adultos, acho, pais da criança) quando a menina, ao invés de empurrar a porta em sentido horário para sair, ela o fez ao contrário. A mãe a corrigiu: - Não, filhinha, é para o outro lado. A menina mudou o sentido, empurrando a porta novamente, agora ajudada pela mãe. 

Fiquei pensando nesse gesto criado pela humanidade ao longo da história - o de ensinar às gerações mais jovens de como as coisas da cultura funcionam - tão natural para nós, quando, na verdade, deveria nos assombrar sempre de novo. 

Professores e professoras, profissionais destacados para fazer a transição do saber acumulado às mãos das novas gerações têm de se admirar mais e mais com a arte de ensinar o que sabem, uma vez que estão incumbidos a exercer esse papel "intencionalmente" e de fazê-lo bem feito e sem desculpas, quaisquer que sejam elas. 

Se nós, profissionais da educação, acreditamos que esse processo deve ser sistematicamente planejado e organizado, não é difícil compreender a teoria histórico-cultural pois ela deseja esclarecer exatamente como isso se dá para cada novo integrante da sociedade. 

No caso das intervenções cotidianas é possível defender que o lugar ocupado pela criança nas relações sociais de que participa é força motivadora do seu desenvolvimento. Esse lugar é determinado pelas relações que os adultos estabelecem com ela. A "menina do banco" acompanhava os pais numa atividade cotidiana. Mas essa ocasião é muito importante para ela. As crianças não vivem num mundo à parte, já dizia Zilma de Oliveira. Os gestos cotidianos dos adultos são caracterizados como "modelo" para a criança de como nós nos tornamos seres humanos, partícipes das atividades criadas pela cultura. Nas instituições da pequena infância o processo é o mesmo, com a diferença de que lá o adulto tem uma formação específica para exercer esse papel, desenvolvendo-o por intermédio de ações planejadas para alcançar uma finalidade prevista intencionalmente.

Fica muito fácil compreender o que significa a ideia de que a Educação Infantil é complementar à família. Ora, para crianças pré-escolares (quer dizer, que frequentam a etapa anterior da escola), os adultos são potencialmente convocados a orientar as aprendizagens e nisto se empenham como atividade profissional, para a qual estudaram. Entre zero e seis anos, o mundo se abre para a criança com intensidade muito maior do que qualquer outro período em sua vida.

A presença da criança junto aos pais no banco pode significar que a criança construa, em contato com as capacidades, as aptidões e as habilidades que estes já desenvolveram, uma oportunidade de reproduzir para si  essas características, uma vez que os novos integrantes da sociedade relacionam-se com o mundo segundo suas condições concretas de vida e de educação.

Muitos profissionais da educação acreditam que a etapa da Educação Infantil tenha que se pautar nos objetivos relacionados ao trabalho com conteúdos como no Ensino Fundamental. Essa crença é oriunda, em parte, da situação em que a educação de crianças de 0 a 5 anos nasceu: dividida em assistencialista e escolarizante.

Ora, o que mais fará a Educação Infantil além de ensinar?

A questão chama para a discussão: por que não temos então a nomenclatura "Ensino Infantil"?

A Educação Infantil se relaciona diferentemente, pela sua especificidade que não é da etapa do ensino, com a formação da criança pequena em sua humanidade. As características humanas que almejamos, como alerta Marx (1962), todas as relações humanas com o mundo: a visão, o olfato, o gosto, o tato, o pensamento, a contemplação, o sentimento, a vontade, a atividade, o amor, enfim todos os órgãos da sua individualidade, são produtos da história, resultam da apropriação da realidade humana (MELLO, 1999). Logo, é necessária uma rica experiência desde o nascimento da criança: de contato com a natureza, com as outras pessoas e com a cultura acumulada pela humanidade ao longo da história. Segundo Mello, esse contato provoca no cérebro da criança as ligações neurais que criam o desenvolvimento da consciência e logo o desenvolvimento infantil.

Ana Lúcia Goulart de Faria* descreve de forma elucidativa o papel das instituições da pequena infância como um lugar onde o profissional vai trazer para as crianças os ambientes de vida num contexto educativo. Não vai dar aula, mas desorganizar o tempo e o espaço do mundo adulto, organizando-os para que as crianças produzam as culturas infantis, para que as crianças sejam crianças, construindo assim as dimensões humanas*.

Para compreender a lógica da construção da nossa humanidade por meio da cultura é preciso acessar a tese central de Vigotski e seus colaboradores que contradiz a concepção de que a criança já nasce com um conjunto de potencialidades inatas que as condições de vida e educação vão ajudar a desenvolver. No começo de nossa existência, a humanidade está externa a nós. Ao longo do processo de apropriação da cultura ao qual seremos expostos e com o qual tivermos contato, tornar-nos-emos seres humanos. Daí a importância de vivermos, desde bebês, num ambiente rico em objetos e instrumentos da cultura e com adultos dispostos mediar nossa relação com ele.

De qualquer forma é preciso que o educador identifique os elementos culturais que precisam ser assimilados pelas crianças para que elas desenvolvam ao máximo as aptidões, as capacidades, e as habilidades criadas ao longo da história pelas gerações antecedentes e descubra as formas adequadas de fazê-lo.

Assim, de vez em quando é preciso perguntar como crianças continuam a aprender o segredo de abrir as portas.


* Ana Lúcia Goulart de Faria foi orientadora de Doutorado da profª. Drª. Maria Carmen Barbosa.
* Esse pensamento encontra-se na obra "O mundo da escrita no universo da pequena infância", organizada por Faria e Mello (2005, p. 128).

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Anões e gigantes: o jardim da pré-escola

A Profª. Drª. Maria Carmen Barbosa continua me emocionando, principalmente depois de tê-la ouvido em três palestras, proferidas em diferentes municípios, aqui do norte catarinense, no ano passado. E foi também de sua última orientação de tese de Doutorado que me veio a grata satisfação em saber que minha concepção de Educação Infantil está consonante com as últimas pesquisas de especialistas e estudiosos da área e que não se trata de um delírio pessoal. (Quero frisar que a atualização e o abandono de antigas crenças é parte da vida de um docente. Não há vergonha alguma em mudar de concepção. Aliás, é um dos prazeres da profissão).  

Estou me referindo à tese de Doutorado de Cinthia Votto Fernandes (2014), intitulada "A identidade da Pré-Escola: entre a transição para o Ensino Fundamental e a obrigatoriedade da frequência". A pesquisa desenvolveu-se através de entrevistas com pais, professores e crianças a respeito das semelhanças e diferenças nas concepções desses sujeitos em relação à Pré-Escola e ao primeiro ano do Ensino Fundamental. Além de observações das crianças em atividade e da análise da representação por desenhos das crianças a respeito do significado para ela dessas duas instâncias educativas, o que também fez parte do trabalho.

É importante que se leia todo o trabalho mas principalmente que se atente ao que Fernandes conclui com a pesquisa e que se encontra nas "Considerações Finais" da tese. Em vinte e três parágrafos, seis páginas e mais ou menos noventa linhas, a autora descreve com exatidão a situação da Pré-Escola que encontrou na instituição pesquisada no Rio Grande do Sul e que coincide, incrivelmente, com a maioria da opinião de pais, professores, gestores, orientadores educacionais e crianças da sociedade do que seja o trabalho da Pré-Escola em muitos municípios brasileiros atualmente.  

Vejamos alguns excertos do trabalho: 

"Os significados presentes na narrativa dos atores do processo educativo sobre a pré-escola no contexto pesquisado trazem uma concepção de pré-escola que se traduz em uma identidade. [...] Dentre tantos significados percebi o predomínio de uma identidade preparatória". 

Prestemos atenção sobre o que autora quer dizer com "identidade preparatória". A mesma que venho percebendo, recorrente, da parte de pessoas que acreditam que são sabedoras do que deve a Educação Infantil empreender: preparar os pequenos para o papel de alunos. Ouvi, em alusão a essa certeza, frases que negavam a competência das crianças ao final da pré-escola por culpa de profissionais da educação que não cumpriram o seu papel: "Nem sabem segurar o lápis"; "Não reconhecem as letras do alfabeto"; "Não dominam os números de 1 a 9"; "Não vão conseguir ficar sentados na carteira", etc etc.

Em parágrafo seguinte novas deduções da autora:

"Parece haver o entendimento literal de que, na pré-escola, apesar de seu nome apenas identificá-la como etapa anterior à escola, o que ocorre é uma legitimação de uma pré-escolarização, ou seja, ações pedagógicas que possuem sua ênfase em situações de preparação de aprendizagem de leitura e escrita, como também de matemática e conhecimentos escolares pertencentes ao currículo do Ensino Fundamental. As referidas propostas são baseadas em atividade estéreis, sem significado para as crianças e relacionadas a um treino visomotor, não com intenção de ampliar as relações sociais, culturais e cognitivas. Estes conhecimentos, principalmente o da linguagem escrita, aparecem como grande foco da escolarização, apostando nesta preparação para que ocorra o sucesso das crianças nas etapas seguintes".

Salvo os docentes que publicamente se manifestaram indignados com essa realidade, os demais colegas parecem concordar com esses objetivos da Pré-Escola. Caso contrário não teríamos tantas fotocópias de atividades de treino a povoar as pastas das crianças, com intuito de surpreender positivamente os pais, no afã de parecerem-se docentes conscientes de seu papel como mediadores pedagógicos. Esses mesmos profissionais também poderiam ter-se dado conta, pelas inúmeras vezes que lhes foi esclarecido que, em se tratando de linguagem escrita, o significado se complexifica, uma vez que não se trata de apenas dominar as letras do alfabeto. Para a criança adentrar no mundo da leitura e da escrita necessário se faz reconhecer seu valor social e participar de eventos nos quais seja necessário ler e escrever, comunicando muito mais do que o traçado correto das letras e sim, sentimentos e emoções que envolvem essas ações.

Fernandes se aproxima intimamente de algumas concepções e sinaliza pontualmente:

"Essas ações pedagógicas, como os espaços pequenos organizados com mesas e cadeiras, com poucos brinquedos, sem espaços externos, tempo fragmentado dividido pelas atividades pedagógicas e ações de cuidado, sem permanência ou mesmo reduzido para a brincadeira, evidenciam uma espécie de aceleramento para que as crianças compreendam o quanto antes todos os fazeres que o "ofício de alunos" as impõem. Nesse sentido, essas práticas parecem aproximar-se de um processo de preparação para a escola de Ensino Fundamental, revelando um modo escolar de socialização [...]. Não há uma proposta em si, mas parece que a pré-escola possui como tarefa a adaptação à futura escola, o que diminui as possibilidades de desenvolver aspectos que, na escola, diante do modelo vigente do Ensino Fundamental, não serão oportunizados, como teatro, cinema, música, dança, além de outros conhecimentos que não são considerados legítimos socialmente".

Se invocássemos a fala de muitos profissionais da educação, solicitando que dessem depoimentos a favor de uma escola que lhes desenvolveu outras linguagens além da oral e da escrita, concluiríamos que temos grandes lacunas em nossa formação integral, uma vez que linguagens não valorizadas socialmente, diga-se economicamente, foram relegadas a segundo plano na maioria das escolas nos últimos trinta anos. É exatamente esse o papel que a Educação Infantil tem: desenvolver com as crianças outras linguagens, não privilegiando duas em detrimento das demais. Porém, para que isso seja realidade e de desejo dos adultos responsáveis pela educação dos pequenos, valorizando as experiências que trazem para as instituições mesmo pertencendo a um grupo tão jovem da sociedade, é preciso reconhecer que a Pré-Escola não se chama "pré" de preparatória e, sim, "pré", como etapa anterior, com uma especificidade que não pode ser subjugada oferecendo a promessa de futuro sucesso escolar. É genuíno reconhecer que muitos profissionais precisam urgentemente se dar conta de que não estão fazendo nem isso, nem aquilo. O que é deveras preocupante. (Discorrei sobre isso num próximo texto...).

"A pré-escola é significada, neste contexto, como um ambiente preparatório para que a criança tenha melhor desempenho na etapa seguinte, para tanto, são proporcionadas atividade baseadas no treino e na repetição, vazias de significados. Essa concepção pode ocorrer devido ao não entendimento das leis, bem como à forma de implantação destas e das diretrizes curriculares que norteiam nacionalmente tanto a Educação Infantil quanto o Ensino Fundamental".

Um grave equívoco aconteceu com a transposição das competências para as crianças que passaram a integrar com um ano de antecedência o Ensino Fundamental. Como se elas pudessem, por conta própria, desenvolver mecanismos para se comportar como alunos. Mais grave que isso: a responsabilidade, antes das crianças que hoje frequentam o primeiro ano do Ensino Fundamental, foi transferida para as crianças de quatro e cinco anos. A nomenclatura é autoexplicativa: pré I, crianças de três anos, completando quatro anos até 31 de março, comportando mochilas, com material escolar, como se fossem "alunos". Ora, a criança que se adapte? Por outro lado, os suportes e instrumentos de escrita são restringidos às crianças. Práticas que mobilizam experiências empobrecidas, revelando que as crianças deveriam mesmo, o quanto antes, crescer, uma vez que a infância é um período idílico, mas que não requer um debruçar sério da parte dos adultos.
    
Como última ideia que necessito acrescentar a essa discussão, busco o excerto da seção "Considerações Finais" da tese de Fernandes que, deduzo, fala por si. Qualquer semelhança é mera coincidência:

"[...] nesse cenário, parece existir, apesar de haver cursos de formação, uma dificuldade em compreender e construir uma política para a Educação Infantil, especialmente pela rede municipal. Os professores e o executivo do município parecem não saber acessar a novos conhecimentos sobre a Educação Infantil. Ademais, este último parece também não considerar fundamental para a qualificação da rede a formação continuada com temáticas que, efetivamente contribuam para a ação pedagógica nas instituições".